quarta-feira, 20 de maio de 2015

PARA DAQUI A MAIS QUATRO DIAS
Fazer aniversário é uma experiência instigante e lancinante nos dias que fogem algumas vezes frustradores.
Contudo marca que de alguma forma consegui mais um ano de vida, ou seja, 365 dias de alegrias, tristezas, realizações, decepções, desilusões, esperanças despedaçadas, luzes, sombras... E poesia que me diz não ter vida em vão.
365 dias passados nos acontecimentos bons ou ruins, 365 dias e dias em que o tempo não para, não espera, em que uma Roda intermitente gira.
365 dias idos, e os mortos no umbigo e no sangue todos os sacrifícios...
Hoje, um sorriso sem paz, uma melancolia não se move, a alegria pronta a descer na próxima estação, e a solidão desnecessária a sangrar achaques.
Vida amarga vez ou outra adocicada num oásis, no intercurso dessa viagem através do difícil cotidiano impreciso.
Vida, movimento, experiência, maturidade, cansaço e esse planeta que para mim é um verdadeiro mistério, pelo qual passo extasiado, pasmo, maravilhado, e para o que não busco provisórias explicações dessas que rolam convenientes pelo mercado e pela prateleira das livrarias e das vozes ou da televisão.
E, findo o dia natalício, depois da noite, poderá  surgir mais um prognóstico de que, provavelmente, mais alguns dias de oportunidades se abrem para   "ser feliz".  E que tal não pode se basear no egoísmo, nem no esquecimento do próximo, do semelhante, do vizinho, do amigo, do inimigo, dos familiares, pois afinal estamos no mesmo barco e cidade e planeta.
E após, na meia-tinta do alvorecer, um oraculo jogará os dados.
E por um dia a mais, ser comum, singular e plural, na contingencia do mais-tempo e de mais-espaço para, descalço, flanar praças, cruzar calçadas, andar ruas, encontrar gentes, conhecidos, amigos, amigas, parentes, passar desencontros, deglutir  sopa de letras e tencionar a multi-mãos  construir  o  "paraíso terrestre".
Entretanto, eu quero mesmo um aniversário amnésico, cru, ambulante, aberto, nu, inventado, verdadeiro, bruto, inteiro, mágico, familiar, louco, feliz.  Nem frio, nunca  morno, pois a mediocridade é o esterco fertilizante da hegemonia, do senso comum atávico normativo. Mas que seja especialmente  quente, solar.
Neste dia que por mais que anseie o Caminho, me baste ao menos agarrar ferozmente a um modo de andar, num passo certo. O Caminho, isso não encontrei. Mas nesta busca  anos a fio, sempre me foi dado uma grande certeza: meu caminho não sou eu, é o outro, é  os outros. Eis  o meu porto de partida.
Enfim e por fim, que neste intentado natalício, seja mais um dia, do fim ao começo, na busca de um gozo na arte, de um percorrer deslizante rumo ao por do sol e ao apagar da chama... E antes que a chama se apague e tudo se torne um único clarão brilhante na passagem, sujeitar-me-ei  riscar um belo poema, insistirei na construção de um poema alegre na aurora nascente, onde a gênese da palavra se esconde e se manifesta com a permanência do verbo.

Vilemar F. Costa   -   20.05.2015 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015



Possivelmente por, como disse o Drummond, não se esperar nada, conseguimos ver as pessoas- o mundo. E acho que isso possa ser um norte maior. Nunca fui das pessoas mais crentes que conheço. Leio livros místicos, esotéricos, cabalísticos, cristãos, Zen, filosóficos, porque me fazem sentido. Não acredito em reencarnação, nem em carma como milhagem, como dadiva, como dívida, acredito em tentar viver com compaixão e humildade, buscando melhorar-se e melhorar o mundo em volta. Sem esperar nada, mesmo. O mundo não vai me pagar, não vai súbito ficar bom, agradável, melhor, apesar de que eu acho que isso é o que falta, especialmente pra minha vida.
Em alguns momentos do meu viver ficou/ fica difícil sequer pensar em qualquer tipo de divindade. Acho complicado quem encontra Zeus, Deus, Eus na miséria, na necessidade, na perda, no desejo, na dor...
Mas em todos os momentos, bons ou ruins, é possível pensar como um pouco de capacidade de sair de si, abandonar o umbigo, olhar em volta, dar de ombros, olhar o outro, torna/tornaria aquele momento melhor/menos pior. 
Não conseguiria ser uma dessas pessoas que simulam que a vida segue ilesa, mesmo com todo solavanco, também não suportaria levar minha vida como um simulacro, numa simulação de estar alheio. Como disse o Eco, e eu cito: " Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota."
Conseguimos ver a santíssima trindade desta nossa modernidade? a) poucas horas de sono, b) máxima produtividade e c) conexão ininterrupta, que se traduz numa eterna disponibilidade. O dia não é mais dia e a noite, apenas noite. As redes, que não conhecem intervalo nem descanso, atravessam as horas, conectando todos os ciclos. Logo, perde-se a noção de salto e de progressão. Tudo é continuidade, e até a passagem de um ano a outro começa a perder o sentido. Os ciclos envelheceram. Dormir é um valor negativo, o acaso é evitado e as conexões se volatilizam.
Falei em dar de ombros... Seria uma rima ou uma solução? Uma resposta ativa ou passiva? Responsável ou irresponsável? Como dar de ombros diante de uma crise como a que o mundo atravessa? Como dar de ombros quando o desconhecimento é um pecado? Como assumir-se ignorante quando há fartura de informações chegando por todos os canais? Como dar de ombros se precisamos apenas encaixar uma informação na outra e oferecê-la em bandeja de prata? Ou dar de ombros seria, ao contrário, a tácita admissão de que, a despeito da superabundância e dos bancos de dados superlativos, permanecemos um bocado às escuras, tateando sentidos e tendo de interpretar cada signo um a um, exatamente como fazíamos há milhares de anos, nas cavernas da nossa infância?

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ética, generosidade, honestidade, solidariedade, Justiça e altruísmo são virtudes cada vez mais raras num mundo onde pessoas estão a serviço do dinheiro, do ter, do possuir. É nessa sociedade que você quer viver?
A generosidade, a fraternidade, a alteridade  e a hospitalidade  devem ser algumas das coisas na vida que não podem ter preço.
Não deveria ser necessário ser poeta, louco, utópico, sonhador, hippie para apreciar o amor ou a amizade.
Por que o homem se deixa levar por um processo no qual  todas as relações sociais se transformam em mercadorias? O que nos empurra em direção deste caminho da sociedade de mercado, na qual, empresas pagam mendigos para guardar lugar na fila, pais oferecem dinheiro para que seus filhos tenham boas notas na escola, paga-se fortuna para um cambista por um ingresso da final da Copa, a posse de um carro lhe torna um rei?
Transformar tudo em mercadoria tem, desculpe o trocadilho, um preço. Quando o dinheiro toma um papel cada vez maior na política e na vida social, a sociedade  está em risco.
E é alto o risco de fenecerem os valores básicos humanos pois uma sociedade sadia depende de importantes valores que não estão no mercado: espírito cívico, educação, investir em espaços públicos onde cidadãos de classes sociais diferentes se encontram, o bom convívio na vida comunitária, a amizade indistinta, a cidadania, e a ausência incondicional do que hoje se observa na face das pessoas: a sensação de desconfiança das pessoas, umas nas outras.
Esse estado de ser, induzido e sutilmente imposto como normal, começa a partir do inicio do século 20 em que se viu uma disputa feroz entre os adeptos de que o Estado era a melhor forma de organizar a sociedade contra os defensores de que o mercado seria mais eficiente. Era uma espécie de jogo mortal e radical, que terminou com a vitória do mercado.
Os  grandes defensores do livre mercado, não apenas derrotaram as os valores da vida social em comunidades, o espírito cívico e a cidadania, a fraternidade desinteressada e a ética, ao abrirem caminho para uma era de mercadismo ensandecido, nem foi por acaso que os mercados financeiros foram desregulamentados, os impostos para grandes fortunas camuflados, e criada a ideia de que o mercado é ontológico e natural e que através dele se  poderia resolver qualquer problema. Com o extremismo dos adoradores do mercado, do dinheiro, das propriedades exclusivas  colocou-se abaixo do ter, do poder e do dinheiro toda uma sociedade humana, chegando-se ao ponto de alguns destes adoradores do mercado, virem a dizer, que não existe sociedade, apenas indivíduos e famílias. Ou seja, o Estado não deve se meter na vida de ninguém. O problema desse pensamento é simples e perigoso: ele ignora que a sociedade existe, sim, e que as pessoas se movem não apenas por relações econômicas.
Contudo o mercado e seus áulicos, moldou uma sociedade em que antes de mais nada o ponto crucial nas relações humanas é o de saber qual o benefício financeiro de ajudar alguém diante de uma dificuldade de saúde, alimentação ou moradia ou em oferecer um quarto que você poderia alugar para outras pessoas, ou ajudar  com trabalho e materiais num mutirão para construção ou reforma de casa?
Reduziu-se assim, o espírito comunitário, a comunidade, o convívio, a humanidade fraterna e solidária, o bem-estar social de todos indistintamente, a práxis de trabalho em torno de um horizonte comum como um ponto axial, a uma mera utopia irrealizável, a um vão sonho perdido, reduziu tudo como sendo tal convivo e comunidade uma meta inalcançável, uma falta de vontade em progredir por méritos próprios, uma fraqueza moral.
Pois nessa sociedade em que dinheiro e o mercado valem mais do que tudo e na qual tudo está à venda, quem pode, manda, quem sempre ganha, ganhará sempre e mais, quem tem fatalmente obteve, por esforço, por mérito e qualidades e capacidades especiais, nem sempre validadas e comprovados,  às quais os que não têm não alcançaram e não mais alcançarão, porque já está determinado que, quem merece ganha, quem compete e derruba, vence, que as oportunidades não estão para todos, e que quem tem mais, sempre terá mais poder. E de fato ao longo do tempo, quanto mais posse, oportunidades, méritos,poder eles têm, mais conseguem leis e regulamentações que os favorecem — mesmo que isso aconteça à custa das outras pessoas.
Pior é que dessa forma acabam criando uma sociedade em que é muito difícil ascender socialmente e o ciclo vicioso de, mais ter, mais poder, e mais leis a beneficiar e proteger o ganho, o lucro, a posse, é infinito.  E para os que nada tem, sobra a exigência por eficácia, eficiência, competência e méritos para a ascensão, mesmo que inexistam  os meios para atendê-la.
Na outra vertente, o modelo de produção, e de trabalho, impõe ao assalariado, ao trabalhador/produtor, trabalhar  sempre com as mesmas pessoas e conhecer gente que sempre está no mesmo círculo social que eles, o que direta ou indiretamente irá produzir estranhamentos aos diferentes de categorias e classes, e uma perspectiva distorcida de não-amigo, de um outro não-igual, e que de alguma forma pode acarretar uma síndrome de estarem todos sempre com medo uns dos outros e sempre com medo do próximo. Medo de perder sua posição, seu status, sua propriedade, e medo de qualquer coisa fora do normal vir a se transformar numa ameaça real.
E especialmente nas últimas três décadas, o mercado dominou muitos aspectos da vida social e esvaziou o debate sobre ética. Passamos  a tomar decisões não com base se elas são boas ou más, mas se são lucrativas ou não, e não mais sério é o fato de que através da política em vigor no sistema globalizado de mercado, este sistema gira hoje somente gerando os maiores e melhores benefícios para as pessoas que estão no topo em detrimento do restante da sociedade.
Com esse comportamento, o mercado e os poderosos acabam empurrando grande parte da sociedade insatisfeita e revoltada por não ascenderem ao local privilegiado das elites, para a insubordinação, para a rebeldia, para as ocupações e movimentos de massa como uma das saídas para mudar essa situação, através do reagir, do negar, do confronto, visando buscar implementar uma nova maneira de viver que ajude a equilibrar as forças entre quem tem muito dinheiro, quem muito pouco e aqueles que não tem nada.
Na realidade temos como certo apenas que quanto mais coisas o dinheiro pode comprar, menos oportunidades teremos para pessoas de diferentes formações e classes sociais se encontrarem, e que o aumento da desigualdade e da quantidade de coisas que o dinheiro pode comprar são corrosivas para a humanidade, para a democracia, para qualquer sociedade sadia, para a ética e para os valores morais.
Uma única certeza é a de que hoje estamos hoje vivendo ou perto de viver numa plutocracia, sistema político onde o grupo mais rico exerce o poder, mas restando-nos, porém o consolo e o conforto de saber que há coisas que o dinheiro não compra: O afeto, o amor, a amizade, o espírito cívico, a solidariedade. Essas coisas não podem ser compradas.
Porém, estejamos atentos, que bem se repare, pois ainda assim o egoísmo, a ganância do lucro, a particularidade do privado, a sede de poder e do ter, o dinheiro dos poderosos  chega cada vez mais perto de comprá-las.
Vilemar F. Costa – agosto/014



domingo, 9 de fevereiro de 2014


A  solidão entra pelos meus ouvidos  e sob seu negror solto o meu desabafo.
É noite e esta deveria ser a hora  em que me recolheria, mas será mais um noite insone, agitada, chorosa.
Pouco mais de seis décadas, anos a fio a vida me dá suficientes lições de humildade, tolerância, alteridade,  e eu as apreendo todas no compasso de uma construção.
Consciente estou que ao longo dos anos fiz algo construtivo, real, benéfico, porque ao longo dessas décadas a vida me deu boas e fortes lições de humanidade ao colher as experiências ora duras, sofridas, dolorosas, ora leves, felizes, agradáveis.
Pelo caminho de pedras, areia, suor, sal, poeira, poesia, flores, luz, sombra, perdas e ganhos,  consegui encontrar um sentido, propósito e significado da vida: O OUTRO, a alteridade, a empatia, o cuidar de si cuidando do semelhante, a solidariedade sem caridade e indulgencias.
E de repente mais uma vez a vida me chama ao real da dor, recebo mais um aprendizado do desencanto, da desesperança, do desespero, meus limites se esgarçam e apresentam nos lanhos minhas insuficiências e limitações...
Nesses dias meu mundo é um risco mergulhado em angustia, incapacidades físicas e mentais, desarmonia psicológica, pulsão da solidão e depreciação, decepções...
Abatido e desanimado, a consciência me alerta de minha vulnerabilidade e diz não poder eu sozinho mudar a situação que passo, ou suportar o sofrer do peso da incapacidade de contornar as faltas pecuniárias e traumas físicos e psíquicos recentes...Me falta a humanidade?  E a Totalidade, Clareza, Inteireza, Pertença,  em que balsas cruzam o rio?
Quem melhor me traduz é Murilo Mendes :
“Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
 Os sentidos em alarme gritam:
 O demônio tem mais poder que Deus.
 Preciso vomitar a vida em sangue
 Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
 Passam ao largo os navios celestes
 E os lírios do campo têm veneno.
 Nem Job na sua desgraça
 Estava despido como eu.

 Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
 Espero a tempestade de fogo
 Mais do que um sinal de vida.”


Fico ainda e também com Leminsky,  - quisera eu ter escrito isto:

“Nunca sei ao certo
 se sou um menino de dúvidas
 ou um homem de fé
 certezas o vento leva
 só dúvidas ficam de pé.”

Paulo Leminsky


Vilemar F Costa 07.02.2014

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014



COMO TRANSFORMAR HOMENS

 

Comece por escravizar suas almas. Para tal, se apresente como portador da 'verdade' e da 'sabedoria'. Se utilize das superstições e crenças mais antigas - quanto mais antigas, mais fácil deles 'engolir' - procure aterrorizar com o inferno e com o fim-do-mundo - isso sempre funciona - para finalizar, diga que só os que acreditam se salvarão e os que ousam duvidar já estão condenados aos tormentos eternos. Isso deve bastar para que eles tenham medo de sequer pensar, quanto menos duvidar de suas 'verdades'. Mesmo assim, se por acaso alguém ousar duvidar, acuse-o de herege ou ateu - faça isso parecer o mais hediondo dos crimes - também é válido acusá-lo de adorador do demônio, ou coisa parecida...

Após este 'tratamento' inicial, apresente uma lista de regras que deverão serem seguidas sem questionar. Dentre estas regras - algumas boas e óbvias, para não despertar suspeita sobre suas intenções - acrescente também uma que os faça se desapegar de suas posses - principalmente de seu dinheiro.

Finalmente incentive que as suas 'vítimas' (escravos em potencial) contribuam para a 'nossa' causa; pois precisamos levar a 'verdade' aos que dela desconhecem.

Pronto! Agora você já terá um rebanho de bestas escravas e dependentes de suas palavras; e que farão quase tudo o que você mandar.

O único problema que pode surgir, para dispersar o seu rebanho, é se eles começarem a descobrir a verdade por trás da sua 'verdade'. Mas ainda assim, a quantidade de bestas sempre é maior do que aqueles que têm cérebro e coragem para pensar; e sempre haverá mais bestas a te defender do que homens livres e inteligentes a te criticar. Os exemplos estão aí, é só olhar e ver...




DO SISTEMA DO DINHEIRO E DA POLITICA,  E A NOVA SOCIEDADE


Nós devemos impor que o ensino na universidade desenvolva a reflexão e a formação politica de modo a torna-la uma base de ação externa efetiva.  -  Michel Foucault.


A retórica atual usada pelos adeptos do sistema patrimonial-patriarcal produtor de mercadorias e seu fetiche dinheiro, especialmente os que se alocam na dita classe média, é rica no emprego de palavras como “crescimento”, “mérito”, “desenvolvimento”, “trabalho”, “produtividade”, “esforço próprio”, “empenho” “reforma” etc., de modo a mascarar a destruição paulatina do progresso real alcançado em algumas áreas da vida por uma significativa minoria que intentam lhes igualar e mordem seus calcanhares, consumindo, comprando, frequentando lugares que antes lhes era reservado “por direito natural de bem sucedidos”.


Por falar em reforma, é sabido que os pobres e os miseráveis são os que mais sofrem os nefastos impactos que ela deixa nas sobras, no sobejo. Basta lembrar uma famosa reforma social que se denominou “Aliança para o Progresso” e o acordo MEC-USAID.


Voltando ao assunto relativo à retorica e os adeptos do sistema, um dos efeitos marcantes, porém não percebidos e nem sentidos pelos médios cidadãos e nem pelo conjunto de sua classe, é a imposição e constrangimento impostos sutilmente pela ordem globalizada da matrix, através dos “senhores de engenho” da casa grande e cobradas de execução aos seus “feitores e capitães do mato” sobre o restante da “gandaia da senzala”, e que resulta em tornar propositalmente a democracia supérflua pela “politica do dinheiro e do mercado” como meio de igualização e que pauta os meios institucionais ditos como “social democratas ou centro esquerdistas”.


Deriva que aos partidos políticos resta a fala repetida feito papagaio dos termos “desenvolvimento”, “obras”, “oferta de empregos”, “verbas”, “licitações”, “orçamentos”, “desempenho”, e nenhuma menção programático-ideológica partidária. O objetivo é apenas alcançar o Poder Executivo e arregimentar por imposição ou cooptação o Legislativo, independente da coloração, programa, partido, ideologia de seus componntes.


E assim aos políticos espertos e inseridos no sistema, reserva-se o desespero em agradar seus mestres, a utilização da politica como meio de vida, a construção de  secular e hereditária carreira politica, passada de pai para filho, e a facilidade de ganhar dinheiro de qualquer forma e a qualquer custo.


E se há um partido que tente fugir a regra global estabelecida, que desafie os ditames e regras do sistema, que busque construir uma estrada alternativa para uma robustecida democracia participativa, republicana, embasada numa estratégia socioeconômica igualitária e redistributiva e que elabore um roteiro que vise mitigar os problemas sociais, esse partido “diferente” e que rejeita o seu enquadramento dentro do “quadrado mágico” global, deve ser imediatamente difamado, atacado, “cercado”, isolado, e  acusado de totalitário, ditatorial, “comunista”, parasita, oligarca e burocrata, junto com a pecha de que ele  visa somente instituir a ditadura do partido único populista ou do proletariado, através da “compra” de votos via projetos sociais para os de baixa renda...


Já vai longe a época em que era orgulho e ideológica virtude, partidos e políticos apresentarem programas, projetos, fundamentos ideológicos objetivos, dinamismo crítico e isenção das amarras do governo, mesmo que parte dele alçasse o Poder.


O que se poderia observar se abríssemos a cabeça dos filiados aos “modernos” partidos “socialistas “, “progressistas”, “trabalhistas”, “republicanos”, “democratas”,  seria um espaço vazio, ocupado aqui e ali por uma mobília velha emprestada pela nova ordem globalizada, pelo capitalismo, pelo sistema produtor de mercadorias e de robôs consumidores, que a todos catequisa e converte para a religião politeísta do deus mercado, do deus dinheiro, do deus produtividade  e  do deus trabalho,  e a sua doutrina do mérito e da dissociação social e sexual. Mobília que o cupim da ganância e da inveja corrói lentamente...


E essa nova velha ordem doutrinária de 300 anos, influencia tudo e penetra tudo, desde as tradicionais crenças religiosas, teológicas, místicas, esotéricas, até a informação, a formação, os gestos das pessoas, a maneira de vestir, de falar, a prosa, a agenda social-familiar cotidiana, a educação e subverte os conceitos de entendimento do que seja liberdade  e livre pensar.


A nessa “nova” ordem, a velha nova classe média fetichizada responde hipnoticamente com a recusa em buscar entender e compreender sua existência e funcionamento dentro do sistema e muito menos quer saber ou entender o porquê da existência dos miseráveis, dos despossuídos, dos desempoderados, das favelas e dos pobres, ao contrário, buscam manter seus narizes distantes do “fedor” que deles exala, fecham os olhos para suas faces magras, amareladas, sujas, e suas pedintes mãos enegrecidas de chão, quando muito, visando consolar seu sentimento de culpa e buscando a indulgencia do perdão e do céu numa outra vida, formam “caridosos” grupos a servir sopões noturnos, “doação” de velhas roupas usadas descoloridas, construção de “abrigos” para que por uma ou duas noites os “marginais” e “deslocados” dormitem com direito a um ralo café da manhã e um tchau e até logo. Ou seja, de outra forma armam subterfúgios e camuflagens de negação, para esconder o desejo intimo de não querer resolver ou não se dispor a apresentar uma solução real e definitiva para essa questão social fruto de sua própria classe média e de sua categoria medíocre, intermediária, indecisa entre ser ator principal, protagonista ou ser marionete. Afinal  o pensamento repetido à exaustão é que a estes mendigos, a estes miseráveis, a estes pobretões dos grotões das periferias lhes falta tão somente “força de vontade”, mérito próprio de conquistar seu lugar ao sol, desejo de produzir, vontade de trabalhar, objetivos na vida, etc., etc., etc., ...


Bom, saiamos da “racionalidade sã” e passemos a loucos e loucuras...


Tenho alguns pensares e alguns olhares que objetivam formar um construto, uma construção a várias mãos e cabeças...


Antes preciso expressar o que ressoa em minhas experiências que é a certeza de que  devemos nós, a sociedade, a gente, cada sujeito, comporem-se, se auto organizar, assumir todas as tarefas relacionadas aos nossos interesses comuns de forma direta, sem representantes. Isso é possível, pois se o modelo que nos oprime e explora é uma construção humana, temos a força, e o conhecimento para destruir o que nos flagela e construir algo novo que não oprima e não explore ninguém, e isto nos exige um compromisso libertador muito maior do que uma disciplina repressora. Unamo-nos, assumamos o controle, levemos um novo mundo em nossos corações!


Em seguida, para puxar o freio de emergência desse mundo célere ladeira abaixo, esse mundo dominado pelo dinheiro, pelo espetáculo e pelo fetiche do consumo desembestado de supérfluos, creio que devamos necessariamente agir como atores protagonistas principais  na sociedade, numa luta afirmativa contra um adversário que se utiliza de mentiras, ilusões, induções mentais, assumir uma luta propositiva e positiva em defesa da sociedade em geral, como um todo, utilizando-se da defesa criativa com foco nos interesses mais gerais, coletivos e comunitários, visando criar uma nova sociedade, mais livre e transformadora, decididamente integradora e acolhedora, solidária, não caridosa,  que caridade é uma das armas do sistema – a caridade que apela para indulgencias -,  uma nova sociedade na qual sejamos responsáveis diretos pela idealização, construção, criação e formação de novos sujeitos e novos indivíduos  que tenham foco na alteridade e na fraternidade, uma sociedade nova na qual a vida não se restrinja à sequencia produção/consumo/dinheiro/posse/poder, uma nova sociedade em que o sujeito ator possa dar sentido e unidade à vida.


Essa sociedade nova será aquela na qual já tenhamos concretizado a superação do espírito capitalista e o estatismo autoritário.


Nessa sociedade nova teremos reconhecido o multiculturalismo e o respeito aos direitos culturais a todos.


Temos de definir nessa nova sociedade, - não erguida sobre o alicerce antigo, e nem utilizando a argamassa igual a dos muros que demolirmos - , um princípio real de igualdade, em que o princípio de igualdade não seja separável do princípio de diferenciação, um princípio que valorize a igualdade e a diferença, encarnado num conjunto de direitos sociais, humanos, culturais e ambientais para todos os seres humanos como iguais e ao mesmo tempo diferentes e onde se reconheça que não somos donos e nem superiores à natureza e aos recursos naturais finitos, mas apenas componentes, semelhantes e coparticipantes do mesmo mundo e da mesma natureza.


Essa sociedade nova não terá apoio sobre uma suposta racionalidade do mercado e deverá buscar suas referencias nos movimentos sociais, nos coletivos dos indivíduos (alerto: Sindicato de classe não é movimento social),  nas coletividades das minorias sociais – pobres, negros, favelados, sem teto, moradores de rua, desempregados, catadores de lixo, homossexuais, mulheres, índios – e nos movimentos sociais de defesa do meio ambiente coletivo.


Será uma sociedade em que se falará sobre a nação em termos de sociedade e não em termos de Estado.


Pondo freio a torrente de letras, alguns rabiscos e apontamentos a mais:


*  preponderante, inevitável e necessário é resistir ao sistema globalizante hipnótico do fetiche, do consumo, do espetáculo, do dinheiro. Resistir é viver.


* impor avanços nas exigências relativas aos direitos humanos, direitos urbanos e do meio ambiente.


* exigir construção de alternativas reais e objetivas para implantação de diretrizes voltadas às necessidades de saúde, moradia, educação, geração de renda,  para os desfavorecidos, desempoderados e exilados nas periferias das grandes cidades.


* rompimento total e denúncias concretas e precisas contra as práticas de violência contra as minorias e contra moradores de rua e da periferia, bem como contra  a práxis contrária aos interesses coletivos das periferias e  os de trabalhadores sob regime de salário mínimo.


* motivar a constituição de assembleias populares autônomas e auto organizadas.


* delegar poderes de decisão aos pobres, aos movimentos populares e aos coletivos das minorias e das periferias para assuntos de interesse coletivo próprio e que lhes afete diretamente.


* reverter as prioridades e colocar a economia a serviço do social, da democracia participativa e dos sujeitos na base da pirâmide social.


* pôr mãos à obra na construção de uma consciência politica coletiva junto das massas, visando uma sociedade republicana livre dos especuladores e liberta do mercado, com indivíduos/sujeitos libertos do fetiche do consumo e da mercadoria, e da cadeia financeira, e, portanto livres da pobreza.


* formar, via inserção no currículo escolar das escolas de segundo grau, publicas e privadas, cidadãos conscientes das práticas de igualdade racial, étnica e de gênero e sexo.


* educar toda a juventude estudantil de todos os níveis de escolas, no sentido de que o coletivo e o interesse da comunidade prevaleçam sobre o interesse individual pessoal e buscar ampliar essa formação para toda a sociedade em geral. 


Educação aqui não como forma de domesticação ou como uma das estruturas de poder erigida para sujeitar, alienar, direcionar e coibir o espírito criativo e nem a sã rebeldia.


E a parte mais espinhosa e realista, mas não impossível:


* radicalizar rompimento com FMI, Banco Mundial, OMC, AID – Agencia de Desenvolvimento Internacional, Mercado Comum Europeu  e similares, direcionar o foco na pecuária e agricultura para o consumo interno, e produzir bens de consumo duráveis e voltados para nosso povo e nossa realidade.


* reduzir drasticamente os incentivos fiscais e empréstimos facilitados por bancos públicos para os oligopólios, as grandes empresas, as grandes empreiteiras, os conglomerados comerciais e financeiros, nacionais e estrangeiros.


* desprofissionalizar os partidos políticos.


* retirar a venda e demonstrar para toda a sociedade que o dinheiro, a mercadoria, a multiplicação da mercadoria, a globalização da produção  industrial, a financeirização desta produção, o lucro, o valor e o preço não têm inocência alguma, são astuciosos, têm suas evidências lógicas, racionais e autônomas, não têm escrúpulos e nem piedade, são cruéis e tronam o homem o lobo do próprio homem,  e neste processo demonstrativo revelar-lhes as entranhas, revirar e pôr à mostra seus intestinos. 


Por fim a título de informação, dou a conhecer, que as intervenções políticas, militares e econômicas que trafegam nos países mundo a fora, “promovendo” desestabilizações e “revoluções”,  e implantado regimes autoritários favoráveis e acolhedores do imperialismo do capital e da expansão colonialista do capitalismo globalizante estão a cargo de alguns órgãos caridosos  assistenciais”  globais dentre eles alguns que nomeio  a seguir: AID – AG. DESENVOLVIMENTO  INTERNACIONAL (ALEM.) //  NED – FUNDAÇÃO NACIONAL PARA  A DEMOCRACIA (EUA)   //  NDI – INSTITUTO DEMOCRATICO NACIONAL (EUA)  // CIPE – CENTRO PARA DESENVOLV DA EMPRESA PRIVADA (CAMARA COMERCIO  EUA)  //  ACILS – CENTRO PARA A SOLIDARIEDADE TRABALHISTA INTERNACIONAL (ING)


Vilemar F. Costa – 01.02.2014

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014





Se tivermos que pintar o retrato de um ser social feliz, de um sujeito completo em sua humanidade, temos de atribuir-lhe atividades como:


Ler muito, fazer cursos formadores em artes, literatura, cinema, fotografia, visitar periodicamente amigos e familiares, fazer caminhadas flanando pelas ruas de sua comunidade, despreocupadamente e desinteressadamente, ir à praia semanalmente, ou a uma lagoa, ou a um açude, visitar museus, realizar atividades humanitárias, ter um passatempo predileto, ter um trabalho que lhe permita  tempo necessário para planejar, realizar e usufruir das atividades de sua preferencia, elencadas acima,  reconhecer e sentir qual o seu real valor como parte da humanidade.


Isso significa a volta ao caminho e condição natural da verdadeira natureza humana.


O ser, o existir, o sujeito-ator, ficará apenas como um retrato pintado numa mureta nos subterrâneos da sobrevivência?


Vilemar F. Costa, Francisco  -  23.01.014