DO SISTEMA DO DINHEIRO E DA POLITICA, E A NOVA SOCIEDADE
Nós devemos impor
que o ensino na universidade desenvolva a reflexão e a formação politica de
modo a torna-la uma base de ação externa efetiva. -
Michel Foucault.
A retórica atual usada pelos adeptos
do sistema patrimonial-patriarcal produtor de mercadorias e seu fetiche
dinheiro, especialmente os que se alocam na dita classe média, é rica no
emprego de palavras como “crescimento”, “mérito”, “desenvolvimento”,
“trabalho”, “produtividade”, “esforço próprio”, “empenho” “reforma” etc., de
modo a mascarar a destruição paulatina do progresso real alcançado em algumas
áreas da vida por uma significativa minoria que intentam lhes igualar e mordem
seus calcanhares, consumindo, comprando, frequentando lugares que antes lhes
era reservado “por direito natural de bem sucedidos”.
Por falar em reforma, é sabido que
os pobres e os miseráveis são os que mais sofrem os nefastos impactos que ela deixa
nas sobras, no sobejo. Basta lembrar uma famosa reforma social que se denominou
“Aliança para o Progresso” e o acordo MEC-USAID.
Voltando ao assunto relativo à
retorica e os adeptos do sistema, um dos efeitos marcantes, porém não
percebidos e nem sentidos pelos médios cidadãos e nem pelo conjunto de sua
classe, é a imposição e constrangimento impostos sutilmente pela ordem
globalizada da matrix, através dos “senhores de engenho” da casa grande e
cobradas de execução aos seus “feitores e capitães do mato” sobre o restante da
“gandaia da senzala”, e que resulta em tornar propositalmente a democracia
supérflua pela “politica do dinheiro e do mercado” como meio de igualização e
que pauta os meios institucionais ditos como “social democratas ou centro
esquerdistas”.
Deriva que aos partidos políticos
resta a fala repetida feito papagaio dos termos “desenvolvimento”, “obras”,
“oferta de empregos”, “verbas”, “licitações”, “orçamentos”, “desempenho”, e
nenhuma menção programático-ideológica partidária. O objetivo é apenas alcançar
o Poder Executivo e arregimentar por imposição ou cooptação o Legislativo,
independente da coloração, programa, partido, ideologia de seus componntes.
E assim aos políticos espertos e
inseridos no sistema, reserva-se o desespero em agradar seus mestres, a
utilização da politica como meio de vida, a construção de secular e hereditária carreira politica,
passada de pai para filho, e a facilidade de ganhar dinheiro de qualquer forma
e a qualquer custo.
E se há um partido que tente fugir a
regra global estabelecida, que desafie os ditames e regras do sistema, que
busque construir uma estrada alternativa para uma robustecida democracia
participativa, republicana, embasada numa estratégia socioeconômica igualitária
e redistributiva e que elabore um roteiro que vise mitigar os problemas
sociais, esse partido “diferente” e que rejeita o seu enquadramento dentro do
“quadrado mágico” global, deve ser imediatamente difamado, atacado, “cercado”,
isolado, e acusado de totalitário,
ditatorial, “comunista”, parasita, oligarca e burocrata, junto com a pecha de
que ele visa somente instituir a
ditadura do partido único populista ou do proletariado, através da “compra” de
votos via projetos sociais para os de baixa renda...
Já vai longe a época em que era
orgulho e ideológica virtude, partidos e políticos apresentarem programas,
projetos, fundamentos ideológicos objetivos, dinamismo crítico e isenção das
amarras do governo, mesmo que parte dele alçasse o Poder.
O que se poderia observar se
abríssemos a cabeça dos filiados aos “modernos” partidos “socialistas “,
“progressistas”, “trabalhistas”, “republicanos”, “democratas”, seria um espaço vazio, ocupado aqui e ali por
uma mobília velha emprestada pela nova ordem globalizada, pelo capitalismo,
pelo sistema produtor de mercadorias e de robôs consumidores, que a todos catequisa
e converte para a religião politeísta do deus mercado, do deus dinheiro, do
deus produtividade e do deus trabalho, e a sua doutrina do mérito e da dissociação
social e sexual. Mobília que o cupim da ganância e da inveja corrói
lentamente...
E essa nova velha ordem doutrinária
de 300 anos, influencia tudo e penetra tudo, desde as tradicionais crenças
religiosas, teológicas, místicas, esotéricas, até a informação, a formação, os
gestos das pessoas, a maneira de vestir, de falar, a prosa, a agenda
social-familiar cotidiana, a educação e subverte os conceitos de entendimento
do que seja liberdade e livre pensar.
A nessa “nova” ordem, a velha nova
classe média fetichizada responde hipnoticamente com a recusa em buscar
entender e compreender sua existência e funcionamento dentro do sistema e muito
menos quer saber ou entender o porquê da existência dos miseráveis, dos
despossuídos, dos desempoderados, das favelas e dos pobres, ao contrário,
buscam manter seus narizes distantes do “fedor” que deles exala, fecham os
olhos para suas faces magras, amareladas, sujas, e suas pedintes mãos
enegrecidas de chão, quando muito, visando consolar seu sentimento de culpa e
buscando a indulgencia do perdão e do céu numa outra vida, formam “caridosos”
grupos a servir sopões noturnos, “doação” de velhas roupas usadas descoloridas,
construção de “abrigos” para que por uma ou duas noites os “marginais” e
“deslocados” dormitem com direito a um ralo café da manhã e um tchau e até
logo. Ou seja, de outra forma armam subterfúgios e camuflagens de negação, para
esconder o desejo intimo de não querer resolver ou não se dispor a apresentar
uma solução real e definitiva para essa questão social fruto de sua própria
classe média e de sua categoria medíocre, intermediária, indecisa entre ser
ator principal, protagonista ou ser marionete. Afinal o pensamento repetido à exaustão é que a
estes mendigos, a estes miseráveis, a estes pobretões dos grotões das
periferias lhes falta tão somente “força de vontade”, mérito próprio de conquistar
seu lugar ao sol, desejo de produzir, vontade de trabalhar, objetivos na vida,
etc., etc., etc., ...
Bom, saiamos da “racionalidade sã” e
passemos a loucos e loucuras...
Tenho alguns pensares e alguns
olhares que objetivam formar um construto, uma construção a várias mãos e
cabeças...
Antes preciso expressar o que ressoa
em minhas experiências que é a certeza de que
devemos nós, a sociedade, a gente, cada sujeito, comporem-se, se auto
organizar, assumir todas as tarefas relacionadas aos nossos interesses comuns de
forma direta, sem representantes. Isso é possível, pois se o modelo que nos
oprime e explora é uma construção humana, temos a força, e o conhecimento para
destruir o que nos flagela e construir algo novo que não oprima e não explore
ninguém, e isto nos exige um compromisso libertador muito maior do que uma
disciplina repressora. Unamo-nos, assumamos o controle, levemos um novo mundo
em nossos corações!
Em seguida, para puxar o freio de
emergência desse mundo célere ladeira abaixo, esse mundo dominado pelo
dinheiro, pelo espetáculo e pelo fetiche do consumo desembestado de supérfluos,
creio que devamos necessariamente agir como atores protagonistas
principais na sociedade, numa luta
afirmativa contra um adversário que se utiliza de mentiras, ilusões, induções
mentais, assumir uma luta propositiva e positiva em defesa da sociedade em
geral, como um todo, utilizando-se da defesa criativa com foco nos interesses
mais gerais, coletivos e comunitários, visando criar uma nova sociedade, mais
livre e transformadora, decididamente integradora e acolhedora, solidária, não
caridosa, que caridade é uma das armas
do sistema – a caridade que apela para indulgencias -, uma nova sociedade na qual sejamos
responsáveis diretos pela idealização, construção, criação e formação de novos
sujeitos e novos indivíduos que tenham
foco na alteridade e na fraternidade, uma sociedade nova na qual a vida não se
restrinja à sequencia produção/consumo/dinheiro/posse/poder, uma nova sociedade
em que o sujeito ator possa dar sentido e unidade à vida.
Essa sociedade nova será aquela na
qual já tenhamos concretizado a superação do espírito capitalista e o estatismo
autoritário.
Nessa sociedade nova teremos
reconhecido o multiculturalismo e o respeito aos direitos culturais a todos.
Temos de definir nessa nova
sociedade, - não erguida sobre o alicerce antigo, e nem utilizando a argamassa igual
a dos muros que demolirmos - , um princípio real de igualdade, em que o
princípio de igualdade não seja separável do princípio de diferenciação, um
princípio que valorize a igualdade e a diferença, encarnado num conjunto de
direitos sociais, humanos, culturais e ambientais para todos os seres humanos
como iguais e ao mesmo tempo diferentes e onde se reconheça que não somos donos
e nem superiores à natureza e aos recursos naturais finitos, mas apenas
componentes, semelhantes e coparticipantes do mesmo mundo e da mesma natureza.
Essa sociedade nova não terá apoio
sobre uma suposta racionalidade do mercado e deverá buscar suas referencias nos
movimentos sociais, nos coletivos dos indivíduos (alerto: Sindicato de classe
não é movimento social), nas
coletividades das minorias sociais – pobres, negros, favelados, sem teto,
moradores de rua, desempregados, catadores de lixo, homossexuais, mulheres,
índios – e nos movimentos sociais de defesa do meio ambiente coletivo.
Será uma sociedade em que se falará
sobre a nação em termos de sociedade e não em termos de Estado.
Pondo freio a torrente de letras,
alguns rabiscos e apontamentos a mais:
*
preponderante, inevitável e necessário é resistir ao sistema
globalizante hipnótico do fetiche, do consumo, do espetáculo, do dinheiro.
Resistir é viver.
* impor avanços nas exigências
relativas aos direitos humanos, direitos urbanos e do meio ambiente.
* exigir construção de alternativas
reais e objetivas para implantação de diretrizes voltadas às necessidades de
saúde, moradia, educação, geração de renda,
para os desfavorecidos, desempoderados e exilados nas periferias das
grandes cidades.
* rompimento total e denúncias
concretas e precisas contra as práticas de violência contra as minorias e contra
moradores de rua e da periferia, bem como contra a práxis contrária aos interesses coletivos
das periferias e os de trabalhadores sob
regime de salário mínimo.
* motivar a constituição de
assembleias populares autônomas e auto organizadas.
* delegar poderes de decisão aos
pobres, aos movimentos populares e aos coletivos das minorias e das periferias
para assuntos de interesse coletivo próprio e que lhes afete diretamente.
* reverter as prioridades e colocar
a economia a serviço do social, da democracia participativa e dos sujeitos na
base da pirâmide social.
* pôr mãos à obra na construção de
uma consciência politica coletiva junto das massas, visando uma sociedade
republicana livre dos especuladores e liberta do mercado, com
indivíduos/sujeitos libertos do fetiche do consumo e da mercadoria, e da cadeia
financeira, e, portanto livres da pobreza.
* formar, via inserção no currículo
escolar das escolas de segundo grau, publicas e privadas, cidadãos conscientes
das práticas de igualdade racial, étnica e de gênero e sexo.
* educar toda a juventude estudantil
de todos os níveis de escolas, no sentido de que o coletivo e o interesse da
comunidade prevaleçam sobre o interesse individual pessoal e buscar ampliar
essa formação para toda a sociedade em geral.
Educação aqui não como forma de
domesticação ou como uma das estruturas de poder erigida para sujeitar,
alienar, direcionar e coibir o espírito criativo e nem a sã rebeldia.
E a parte mais espinhosa e realista,
mas não impossível:
* radicalizar rompimento com FMI,
Banco Mundial, OMC, AID – Agencia de Desenvolvimento Internacional, Mercado
Comum Europeu e similares, direcionar o
foco na pecuária e agricultura para o consumo interno, e produzir bens de
consumo duráveis e voltados para nosso povo e nossa realidade.
* reduzir drasticamente os
incentivos fiscais e empréstimos facilitados por bancos públicos para os
oligopólios, as grandes empresas, as grandes empreiteiras, os conglomerados
comerciais e financeiros, nacionais e estrangeiros.
* desprofissionalizar os partidos
políticos.
* retirar a venda e demonstrar para
toda a sociedade que o dinheiro, a mercadoria, a multiplicação da mercadoria, a
globalização da produção industrial, a
financeirização desta produção, o lucro, o valor e o preço não têm inocência
alguma, são astuciosos, têm suas evidências lógicas, racionais e autônomas, não
têm escrúpulos e nem piedade, são cruéis e tronam o homem o lobo do próprio
homem, e neste processo demonstrativo
revelar-lhes as entranhas, revirar e pôr à mostra seus intestinos.
Por fim a título de informação, dou
a conhecer, que as intervenções políticas, militares e econômicas que trafegam
nos países mundo a fora, “promovendo” desestabilizações e “revoluções”, e implantado regimes autoritários favoráveis
e acolhedores do imperialismo do capital e da expansão colonialista do
capitalismo globalizante estão a cargo de alguns “órgãos caridosos assistenciais” globais dentre eles alguns que nomeio a seguir: AID – AG. DESENVOLVIMENTO INTERNACIONAL (ALEM.) // NED – FUNDAÇÃO NACIONAL PARA A DEMOCRACIA (EUA) // NDI
– INSTITUTO DEMOCRATICO NACIONAL (EUA) // CIPE – CENTRO PARA DESENVOLV DA EMPRESA
PRIVADA (CAMARA COMERCIO EUA) //
ACILS – CENTRO PARA A SOLIDARIEDADE TRABALHISTA INTERNACIONAL (ING)
Vilemar
F. Costa – 01.02.2014