“Todos tem o direito de serem acolhidos
o que corresponde ao dever de acolher os outros.
Não deve haver, como há, extra-comunitários.
... O experimento homem não anula as diferenças culturais
com as quais devemos aprender a conviver, a trocar,
a nos complementar e a nos enriquecer.
Nem todos os valores e costumes são convergentes e de fácil aceitação.
Dai impõe-se a tolerância ativa de reconhecer o direito do outro
de existir como diferente e garantir-lhe sua plena expressão.”
Leonardo Boff
Movendo-me em profunda inquietação e na busca de uma imponderável claridade, desprotegido, desconfiado, lanço-me em palavras, como um bárbaro, nada tendo a ensinar, mas tudo a apreender, aberto ao mundo, curioso e perplexo.
Aviso que nada trago de con-versão, mas de in-versão, quicas, em ultimo caso, de imersão.
É no mundo das idéias, o mundo que muda o mundo das formas, onde buscarei o impulso do lançar-me.
Ainda que perceba que é no mundo das idéias que habita o filosofar, sei que é lá também que se dá a origem da resistência das pessoas ao pensar, ao ver e ao ler, e que as faz, abstrata ou realmente, rejeitar o dialogo com a razão, com as idéias, com a dialética e com o contraditório, pois estes as assustam.
Penso que é aterrorizante para muitos o movimento em que as idéias se embalam, pois é aí onde surge o novo, o súbito e o desconhecido, e estes dão medo.
É a mobilidade no mundo das idéias, a causa do sobressalto dos cabisbaixos e silentes autômatos, dos isentos de dúvidas, dos senhores de verdades não paridas por eles próprios, donos de uma opinião formada sobre tudo, e que por isso permanecem estáticos, e por isso consideram mudanças, como bombas perigosas, e que, em suas inconsciências fazem medrar paranóias e fobias, e outros abalos em seus estados mentais e psíquicos cristalizados.
Compreensível a resistência e rejeição que são feitas ante o natural impulso do mover-se nas idéias, porquanto as barreiras erguidas na abstração real das mentes concretas, alicerçam – se na acomodação, erguem-se na submissão e revestem-se em escolhas induzidas que faz crer, haver vida inteligente na zona de conforto e refúgio seguro no castelo que erguem apenas para si, na qual a trans – Formação (forma em ação; o movimento das idéias) originária no mundo das idéias, é cada vez mais temida, por tornar o mundo “externo” dolorido e não “colorido” como ele se lhes apresenta em seu inconsciente refúgio, em sua zona de conforto e em seu consolo.
Pensar não assegura um comportamento perfeito, quando muito razoavelmente tolerável, porque é um mar de contradições essencialmente móvel, a se agitar através de causas, necessidades, razões, imperativos. Refletir, raciocinar, pensar é um espetáculo instável e cada ator do espetáculo é diferente de si mesmo e diferente a cada instante conforme o lado de onde se olha.
Por isso a maioria foge da árdua luta que é o confronto com o pensar e o refletir, e nessa fuga nasce a fobia, e dela o preconceito e o egoísmo, que tornam o ser infenso a mudanças, armando-lhe uma defesa contra o debate, lançando desqualificações, buscando anular o diferente, o estranho, passando a enxergar em tudo e em todos o mal e o mau, alardeando que à sua frente está um inimigo que deve ser “isolado” , no mínimo esquecido, que o “diferente”, “o estranho” deve ser posto no outro lado da cerca.
Tomados pelo medo de sair da “zona de conforto” de suas opiniões cristalizadas, e do consolo de suas opiniões formadas sobre tudo, esses “seres do bem”, indivíduos “sadios”, “normais”, “os bons e tradicionais zelosos do status quo”, passam a propalar que os contrários e os diferentes pregam o caos social e o engessamento da sociedade, ou que as idéias destes “alienígenas amorais” visam a dissolução social, e repetem à exaustão que aqueles que se movem nas idéias e pelo pensar livre estão cegos e doentes (que pena não gostarem do mundo das idéias para que possam apreender o “Ensaio sobre a Cegueira” do Saramago), e que o propósito do agitar, do debater, do contradizer é o de apenas perturbar a ordem, vetar o progresso e retirar-lhes a “zona de conforto”.
Então, nessa linha de ver o mundo ao seu redor em perigo, lhes basta um passinho de bebê para se sentirem ofendidos e machucados e se arvorarem de direitos que lhes permitam a agressão e a barbárie como revide, e o abraçar da hipermoral e da xenofobia, e o estranhamento - o outro não sou eu - como ataque.
Eis assim a realização do mundo pequeno-burguês, imerso no fetiche da mercadoria e no fascismo do consumo, de aparência metapolitica, fundamentado na cumplicidade preconceituosa e na homogeneidade apática dos iguais, o mundo plástico e monocromático dos “normais” no qual a ausência da tensão da Utopia favorece a fermentação das forças mais reacionárias, produzindo uma democracia falsa, gelatinosa, na qual uma simples palavra, um simples pensar, é tida como um desfigurar de “personas” e uma ameaça aos status de pequena-burguesia fetichista alienadora, ameaça que logo tratam de rechaçar.
Então essa impossibilidade do pensar diferente, das “idéias fora do lugar comum” produz a falsa reconciliação das classes e das categorias, é nessa impossibilidade da fuga às regras impostas que habitam as manobras como as observadas na tal da auto-anistia imposta à sociedade pela ditadura civil-militar, ou na falsa conciliação Igreja-Estado aonde ainda impera em ultima instância “a vontade do sacerdote sobre os escravos” consoante pensou Nietzsche, ou a que está exposta no filme Metropolis de Fritz Lang (1927).
Preocupa-me o momento desta viscosa democracia, especialmente ao focar as fraternidades, irmandades, associações, partidos e comunidades de que a dita sociedade civil moderna se compõem, visto que estas buscam levar as discussões e discordâncias para um plano meramente tecnocrático, plástico, inodoro (segundo eles, mal-cheiroso), artificioso, asséptico, incolor (indolor?), por vezes teológico político, ou “teocrático burocrático”, carregados de indisfarçável negação da condição dual e dialética humana. Buscam em ultima instância retirar a fórceps a humanidade do homem.
Escreveu o poeta inglês Wystan Auden: ...”o ser humano carrega consigo, vida afora, um espelho exclusivamente seu e do qual será tão difícil livrar-se quanto de sua sombra”.
Vejo que por esse espelho Audeniano passamos a observar os outros ao observarmos os nossos fantasmas. Pelo refletir de nosso vulto moldado no fetiche da moeda, nos interesses das trocas, na tragédia sufocada pela alienação da produção e do espetáculo, é que apontamos o outro como descartável, como um mero “outro”, apenas só mais um a ser vencido e suplantado, como aquele que não merece contemplação, crédito e muito menos atenção e cuidado.
Fica o consolo de que outros fantasmas internos quiças mais “perigosos”, dos quais nem suspeitamos a existência, dormitam na sombra do inconsciente e não estão refletidos no espelho.
Salva - nos a Esperança de que, para o espelho particular onde nos refletimos não há segredo que ele não saiba desvendar e que se nos revelará em seu tempo.
Linhas atrás dizia de temores e pavores, mas confesso que queria mesmo era denunciar desmandos e desconcertos da vida humana, a intolerância, a indignação sufocada, a melancolia e o desencanto com a espécie, e também apontar as desigualdades, os desiguais e aqueles considerados não afins de outros.
De entremeio aventava a possibilidade de especular sobre a fugacidade do tempo, a precariedade do mundo, a efemeridade do feio e do belo, a ausência e a transitoriedade de tudo, na possibilidade de surpreender o humano originário da concepção divina por trás da nossa sombra e solidão deste drama existencial.
Queria simultaneamente perseguir a crença no homem, insistir na possibilidade da realização da felicidade através da Razão e do Coração intermediados pela Mão, da co-realização através da sensibilidade e do desenvolvimento educacional e formativo, o qual necessariamente não seja o de uma academia ou escola curricular, mas sobretudo empírico, existencial e intuitivo, acreditar na emancipação humana através da razão e da sensibilidade com visão na totalidade, e sob a ordem, não do livre arbítrio, mas da liberdade.
Buscava apesar de tudo manter a fé e a esperança de que a humanidade ( huma+unidade) intrínseca no homem saia vencedora, de firmar a crença de que o homem é capaz de se trans-Formar, de que cada ser humano é uma forma específica de manifestação que busca na existência real harmonizar razão, instinto e intuição, e crer que quanto mais evoluídos material e espiritualmente possamos estar, mais estaremos próximos de nossa Criação-Formação original adâmica paradisíaca.
Talvez tudo isso fique para outra ins-piração.
Vilemar F. Costa – Julho/2011