segunda-feira, 1 de agosto de 2011

PALAVRAS


“Todos tem o direito de serem acolhidos
o que corresponde ao dever de acolher os outros.
Não deve haver, como há, extra-comunitários.
... O experimento homem não anula as diferenças culturais
com as quais devemos aprender a conviver, a trocar,
a nos complementar e a nos enriquecer.
Nem todos os valores e costumes são convergentes e de fácil aceitação. 
 Dai impõe-se a tolerância ativa de reconhecer o direito do outro
de  existir como diferente  e   garantir-lhe  sua plena expressão.” 
Leonardo Boff 

Movendo-me  em profunda inquietação  e na busca de uma imponderável claridade,  desprotegido, desconfiado, lanço-me em palavras, como um bárbaro, nada tendo a ensinar, mas tudo a apreender,  aberto ao mundo, curioso  e perplexo.
Aviso que nada trago de con-versão, mas de in-versão, quicas,  em ultimo caso,  de imersão.
É  no mundo das idéias, o mundo que muda o mundo das formas, onde buscarei o impulso do lançar-me.
Ainda que perceba  que  é no mundo das idéias que habita o filosofar, sei que é lá também  que se dá a origem da resistência das pessoas  ao  pensar, ao ver e ao ler, e que as faz,  abstrata ou realmente,  rejeitar o dialogo  com a razão, com as idéias, com a dialética e com o contraditório, pois estes as assustam.
Penso que  é aterrorizante para muitos  o movimento em que as idéias se embalam, pois é aí onde surge o novo, o súbito e o desconhecido,  e estes dão medo.
É a mobilidade no mundo  das idéias, a causa do sobressalto dos  cabisbaixos e  silentes autômatos, dos isentos de dúvidas,  dos senhores de verdades não paridas por eles próprios,  donos de uma opinião formada sobre tudo,  e que por isso permanecem estáticos,  e por isso consideram mudanças, como bombas perigosas,  e que,  em suas inconsciências fazem medrar  paranóias e fobias, e outros abalos  em seus estados mentais e psíquicos cristalizados.
Compreensível  a resistência  e rejeição que são feitas ante o natural impulso do  mover-se nas idéias, porquanto as barreiras  erguidas na abstração real das  mentes concretas, alicerçam – se  na acomodação, erguem-se  na submissão  e revestem-se em escolhas induzidas que faz crer,  haver vida inteligente na zona de conforto e refúgio seguro no castelo que erguem  apenas  para si, na qual a trans – Formação (forma em ação; o movimento das idéias) originária no mundo das idéias, é cada vez mais temida,  por tornar o mundo  “externo” dolorido e não “colorido” como ele se lhes apresenta  em seu inconsciente refúgio,  em sua zona de conforto  e em seu consolo.
Pensar não assegura um comportamento perfeito, quando muito razoavelmente tolerável, porque é um mar de contradições essencialmente móvel, a se agitar através de causas, necessidades, razões, imperativos.  Refletir, raciocinar, pensar é um espetáculo instável e cada ator do espetáculo é diferente de si mesmo e diferente a cada instante conforme o lado de onde se olha.
Por isso a maioria foge da árdua luta que é o confronto com o pensar e o refletir, e nessa fuga nasce a fobia,  e dela o preconceito  e o egoísmo,  que tornam o ser  infenso a mudanças, armando-lhe uma defesa contra o debate, lançando  desqualificações,  buscando anular o diferente, o estranho, passando  a enxergar em tudo e em todos o mal e o mau, alardeando que à sua frente está um inimigo que deve ser “isolado” , no mínimo esquecido,  que  o  “diferente”,  “o estranho” deve ser posto  no  outro lado da cerca.
Tomados  pelo medo de sair da “zona de conforto”  de suas opiniões cristalizadas, e do consolo de suas opiniões formadas sobre tudo, esses “seres do bem”, indivíduos “sadios”,  “normais”, “os bons e tradicionais zelosos do status quo”,  passam a propalar que os contrários e os diferentes  pregam o caos social  e o engessamento da sociedade,  ou que as idéias destes “alienígenas  amorais”  visam a dissolução social, e repetem à exaustão que aqueles que se movem nas idéias e pelo pensar livre estão cegos e doentes  (que pena não gostarem do mundo das idéias para que possam apreender o “Ensaio sobre a Cegueira” do Saramago),  e que o propósito do agitar, do debater, do contradizer é o de apenas perturbar a ordem, vetar o progresso  e retirar-lhes a  “zona de conforto”.  
Então, nessa  linha de ver o mundo ao seu redor em perigo, lhes basta  um passinho de bebê para  se sentirem ofendidos e machucados e se arvorarem de direitos que lhes permitam  a  agressão e a barbárie como revide, e o abraçar da hipermoral  e da xenofobia,  e o estranhamento - o outro não sou eu - como ataque.
Eis assim a realização do mundo pequeno-burguês, imerso no fetiche da mercadoria e no fascismo do consumo,  de aparência metapolitica, fundamentado na cumplicidade preconceituosa  e na homogeneidade apática dos iguais,  o  mundo plástico e monocromático dos “normais”  no qual a ausência da tensão da Utopia favorece a fermentação das forças mais reacionárias, produzindo  uma democracia falsa, gelatinosa,  na qual uma simples palavra, um simples pensar, é  tida como um desfigurar de “personas” e uma ameaça  aos status de pequena-burguesia   fetichista alienadora, ameaça que logo tratam de rechaçar.
Então essa  impossibilidade do pensar diferente, das “idéias fora do lugar comum” produz a falsa reconciliação das classes e das categorias, é nessa impossibilidade da fuga às regras impostas que habitam as manobras como as observadas na tal da auto-anistia  imposta à sociedade pela ditadura civil-militar, ou na falsa conciliação Igreja-Estado aonde ainda impera em ultima instância “a vontade do sacerdote sobre os escravos”  consoante pensou Nietzsche, ou a que está exposta  no filme Metropolis de Fritz Lang (1927).
Preocupa-me o momento desta viscosa democracia,  especialmente ao focar as fraternidades, irmandades, associações, partidos e  comunidades de que a dita sociedade civil moderna se compõem,  visto que estas buscam  levar as discussões e discordâncias para um plano meramente tecnocrático, plástico, inodoro (segundo eles, mal-cheiroso), artificioso, asséptico, incolor (indolor?), por vezes teológico político, ou  “teocrático burocrático”,  carregados  de indisfarçável negação da condição dual e dialética humana.  Buscam em ultima instância retirar a fórceps a humanidade do homem.
Escreveu o poeta inglês Wystan Auden:  ...”o ser humano carrega consigo, vida afora, um espelho exclusivamente seu e do qual será tão difícil livrar-se quanto de sua sombra”. 
Vejo que por esse espelho Audeniano  passamos a observar os outros ao observarmos os nossos fantasmas.  Pelo refletir de nosso vulto moldado no fetiche da moeda, nos interesses das trocas, na tragédia sufocada pela alienação da produção e do espetáculo,  é  que apontamos  o outro  como descartável,  como um mero “outro”,  apenas só mais um a ser vencido e suplantado, como aquele que não merece contemplação, crédito e muito menos atenção e cuidado.
Fica o consolo de que outros fantasmas internos quiças mais “perigosos”,  dos quais nem suspeitamos a existência, dormitam na sombra do inconsciente e não estão refletidos no espelho.    
Salva - nos  a Esperança de que, para o espelho particular onde nos refletimos não há segredo que ele não saiba desvendar e que se nos revelará em seu tempo.
Linhas  atrás  dizia de  temores e pavores, mas  confesso que queria mesmo era denunciar desmandos e desconcertos da vida humana, a intolerância, a indignação sufocada, a melancolia e o desencanto  com a espécie,  e também apontar as desigualdades, os desiguais  e aqueles considerados  não afins de outros.
De entremeio aventava a possibilidade de especular  sobre a fugacidade do tempo, a precariedade do mundo, a efemeridade do feio e do belo,  a ausência  e a transitoriedade de tudo, na possibilidade  de  surpreender o humano originário da concepção divina por trás da nossa sombra e solidão deste drama existencial.
Queria simultaneamente perseguir  a crença no homem, insistir na possibilidade da realização da felicidade através da Razão e do Coração intermediados pela Mão, da co-realização através da sensibilidade e do desenvolvimento educacional  e formativo, o qual necessariamente não  seja o de uma academia ou escola curricular, mas sobretudo empírico, existencial e intuitivo, acreditar na emancipação humana através da razão e da sensibilidade  com visão na totalidade,  e sob a ordem, não do livre arbítrio, mas da liberdade.
Buscava apesar de tudo manter a fé e a esperança de que a humanidade ( huma+unidade) intrínseca no homem saia vencedora,  de firmar a crença de que o homem é capaz de se trans-Formar, de que cada ser humano é uma forma específica de manifestação que busca na existência real  harmonizar  razão,  instinto e intuição, e crer que quanto mais evoluídos material e espiritualmente possamos estar, mais estaremos próximos de nossa Criação-Formação original adâmica paradisíaca. 
Talvez tudo isso fique para outra ins-piração.
                                                        Vilemar  F. Costa – Julho/2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

ETICA E SABEDORIA


A ética é um instinto, ou seja,não é necessário definir a ética; a ética não são os Dez Mandamentos, a ética é algo que sentimos cada vez que agimos. E, no final do dia, sem dúvida teremos tomado muitas decisões éticas, e teremos tido que escolher, simplificando o tema – entre o bem e o mal. E quando escolhemos o bem, sabemos que escolhemos o bem; quando escolhemos o mal também sabemos.
O importante é julgar cada ato em si mesmo, não pelas suas conseqüências, já que as conseqüências de todo ato são infinitas, se ramificam no futuro e, a longo prazo, se equivalem e se complementam.  Jorge Luis Borges

Costuma-se dizer, e com toda a razão, que uma corporação não tem consciência; mas uma corporação de homens conscienciosos é uma corporação com consciência. - Henry David Thoreau 


A Ética abrange, entre outras coisas, aquilo que fazemos porque julgamos ser o melhor. Que fazemos não porque há uma lei ou um ser mitológico que criou o mundo nos olhando e julgando: apenas porque julgamos correto.
A ética depende de – entre outras coisas – liberdade e da capacidade de se colocar no lugar do outro.
Será que as pessoas deixam de tomar atitudes corretas simplesmente porque essas atitudes são corretas?
Será que as pessoas só fazem as coisas corretas porque terão uma punição se não o fizerem ou um prêmio, se fizerem?
Ralph Waldo Emerson dizia: “A única recompensa da virtude é a própria virtude.”
Nenhum procedimento ético floresce fora do indivíduo.
Para ser bom é preciso ser ético e para ser ético é necessário saber pensar.

Penso que uma pessoa sábia e culta tem que ser ética ;  talvez por isso Platão fale do governo dos sábios(filósofos)
        Vilemar F Costa .’. - julho-2011


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O ESPANTO IMPERA (*)
“...As faltas do homem em relação a Deus são perdoadas pelo Dia do Perdão; as faltas do homem em relação ao outro não lhe são perdoadas pelo Dia do Perdão”... Mischná
O que há no humano que afastou a Luz refugiando-se na sombra da arbitrariedade e desrespeito ao ser e ao semelhante, esbarrando no extremo oposto da Justiça com Igualdade e da Verdade com Liberdade?
Em qual pórtico escondeu-se a Verdade?
Em qual percurso perdido entre os signos a Justiça?
Que sentimentos, vontades e paixões rompem marcha nos ocidentais, adeptos de doutrinas católicas, protestantes, evangélicas e espíritas, os quais quedam-se surdos e de coração duro aos ditames de suas próprias doutrinas as quais derivam do Ideal Cristão enleado pelo amor grego (Eros e Philia) e encimado pelo derradeiro Amor, o Amor Ágape Crístico, que se revela através do acolhimento, da alteridade e do Perdão?
Entendendo haverem os gregos iniciado a doutrina do Amor, através do Eros platônico e da Philia aristotélica imbricados com o amor romântico dos poetas filósofos de então, arriscamos compreender que o Cristo vem oferecer o Amor Ágape selado com o quarto elemento que é o Perdão com acolhimento, compaixão e alteridade, promovendo-se então a síntese que emerge para a Quintessência, o que possibilita começar a construção do Caminho para o Templo de onde renascerá das cinzas profanas a fênix humana rumo à transmutação alquímica que nos possibilitará, sob a guia angélica, galgar a Escada de Jacó; Onde está o Amor? Ou, onde estão os Amores?
Ressalte-se que Amor Ágape Crístico não é um sentimento mas um dever que filosoficamente atrai ao campo da ética, da moral e da alteridade com o olhar no que é o outro e não em um segundo eu.
A humanidade perdeu esse caminho de construção e transmutação, ou optou por um desvio que a leva ao ego automatizado?
E o que dizer da perda dos outros caminhos: Liberdade, Igualdade, Fraternidade (originariamente Solidariedade), Sabedoria e Beleza? E o que dizer frente à ruptura da constatação de Freud em seus estudos de que no amor interessa a justiça e a verdade? Frente tais circunstâncias terá razão André Gide ao dizer que “com belos sentimentos e belas paixões faz-se hoje o mal e torna-se a Razão má”?
Ainda segundo Freud, leitor de Schopenhauer, o Amor em suas vertentes Philia e Ágape é uma super exigência e uma afronta ao ego narcísico e que essas vertentes ultrapassam as possibilidades de aceitação tolerante e consciente e foge ao controle das emoções da psique egóica, causando então duplo sofrimento, dupla frustração, e atroz sentimento de culpa, instigando a mágoa e produzindo as conseqüentes neuroses, as quais carregarão nesse processo totalitário de ego e de individuo narcísico um sentimento de estar sendo “passado para trás”, tanto no aspecto racional, intelectivo e psíquico quanto no social, de onde poderá vingar a retaliação e a perseguição.
Voltando aos Amores.
Eros é o principio agregador, a fusão. O amor Eros é um amor estético, um amor idealizado, um amor que busca o belo e o sensorialmente agradável.
Philia é a união, a comunhão, o amor de amizade, a fraterna integração entre indivíduos e o que faz a formação de grupos coesos num trabalho comum sem que seus componentes percam suas subjetividades e individualidades. O amor Philia requer, em alguma instância do caminho, a reciprocidade; lembrando que reciprocidade não é retribuição.
O amor Ágape aponta para uma ética positiva da alteridade, do outro, de amar o outro assim mesmo como ele é, não importando como é. O amor Ágape é Igualdade.
Contudo o amor Ágape é escândalo.
O Amor Ágape é um escândalo porque é um dever: ele manda “amar a ao teu próximo”. E assim sendo é um escândalo porque beira o limite humano e só está acessível aos inquietos buscadores que anelam ver a Luz e se disponibilizam Nela a uma constante renovação. Luz que se revela por necessidade de estar novamente velada, cuidada, ou seja, não necessita ser demonstrada mas sim estar de novo sob vigília, zelo, cuidado. Renovação porque a partir da auto-iniciação tudo se torna novo de novo num constante e terno devir.
O Amor Ágape é um escândalo porque mostra a contradição: Será o cristão, cristão? Será o espírita, espírita? Será o Iniciado, Iniciado? Será o místico, místico? Será o filosofo, filosofo? Será o adepto, adepto? Será o crente, crente?
Achar que é automaticamente é um auto-engano. Não basta dizer que é; é preciso ser efetivamente, é preciso de fato viver a doutrina abraçada e por ela se deixar envolver, é preciso assumir e entrar na dinâmica da revelação e da novidade contínua percebida para não cair numa espécie de coletividade indiferente e na negligência de um hábito rotineiro.
No caso específico do auto iniciado, há ainda um compromisso unilateral com o humano, de amparo e amor, que exige cumprimento constante, incondicional, irrestrito e sem pôr-se à prova, porque só se pode condicionar e pôr à prova aquilo que pode alterar-se em seu conteúdo básico a ponto de converter-se em seu contrário.
Como exemplo do que não se põe à prova: o amor, que não pode alterar-se em ódio, o irmão, que não pode tornar-se o estranho, o amigo que não pode tornar-se inimigo.
Vale observar o que nos aponta Soren Kierkegaard ao afirmar que a verdade, a justiça, a abnegação e o desprendimento desinteressado compõem o paradigma do Amor Ágape Crístico, paradigma que também carrega o Amor da doutrina de Buda.
Lembra ainda Kierkegaard que em qualquer relação entre os homens sempre há algum tipo de esperança, mas que nunca poderá haver qualquer tipo de expectativa, de espera, de retribuição de um para com o outro para que não se altere a intensidade do vínculo relacional.
Todo o assunto nos conduz aqui à seguinte pergunta : Que preceitos éticos, morais, relativistas e emotivistas conduziram a humanidade ao desvio do amor grego (Eros e Philia) e do amor Cristão (Ágape) ? Que tendências consequencialistas e utilitaristas se utilizam ao longo da história para validar decisões exclusivas e separatistas e/ou distinções unilaterais que desrespeitam direitos da alteridade e do contraditório, o respeito e acolhimento ao diferente e que alienam o dialogo? Em que escaninho está guardado o humanismo e o espírito anárquico de unidade democrática?
Em que desníveis conscientes e em que desvãos inconscientes ficam esquecidos a solidariedade, a cooperação, a fraternidade, o respeito às oportunidades do outro, a liberdade e o direito a defesa e direito de resposta?
Mesmo assim, ancorado na esperança e na utopia e seguindo a máxima da juventude idealista que buscava ser realista fazendo o impossível, ainda creio que devam vencer os mais humanos, os que são capazes de compaixão, os que respeitam os direitos à liberdade, à alteridade, ao contraditório, ao diferente e ao dialogo; os amantes e os amigos;
Creio que venham a enfraquecer-se até a exaustão os que acham que o mais fraco deve submeter-se ao mais forte e que o convívio na circular horizontal deva submeter-se a hierarquia verticalizada;
Penso que se tornarão inócuos os que determinam que aos fracos cabe a submissão, os que impõem uma diferenciação vertical autoritária, os que exigem que se deva dobrar a espinha aos titulares de cátedras e de maestrias, e os consideram que se tenha o dever de curvar-se em salamaleques aos ungidos ou a dignidades honorificas, ou que se obrigue o cortejar aos que temporariamente estão no “andar de cima” da pirâmide;
Não mais se condenará aos que ousam desdenhar da meritocracia dissimulada e manipulada a pena máxima;
Creio que hão de se acalmar por si e de moto próprio os que desejam sobrepujar e dominar os demais os subjugando ao seu modo único de pensar e seu modo de único de ver o mundo;
Na esperança aguardo que serão vencidas as paixões dos que se consideram mais fortes e mais aptos e mais persuasivos pelo fato de haverem sido “escolhidos” dirigentes entre “os melhores” e portanto serem “supermelhores”.
Enfim, movido pela esperança, pela utopia e pela possibilidade de alcançar a realidade fazendo o impossível, tenho como certo que todos terão a chance de encontrar a Verdade e a Justiça, ainda que provisoriamente, dado a impermanência que ronda a vida.
É isso que se traduz por “transformar o mundo”, segundo a exigência de Karl Marx.
É disso que trata o unir no Mar de Bronze o Fogo e a Água.
Isso se trata de convergir o caminho do pilar da Justiça-Rigor e o pilar da Graça-Misericórdia em direção à Beleza-Fundamento do pilar central que perfaz o caminho da justiça distributiva e equilibradora que emana harmonia, ligada indissoluvelmente à Paz.
Isso trata de buscar a síntese entre a Justiça-Força racional e a Misericórdia-Sabedoria sensata, pela síntese da Beleza no Fundamento do Reino, a Schekinah.
Vilemar F. Costa .’.
(*) O espanto carrega a filosofia em seu interior. O espanto é a causa do filosofar. O espanto é Páthos e enquanto Páthos é Arké. O espanto é a dis-posição em manter-se em suspenso,em vigília, aberto, desarmado, atraído e fascinado pelo abrir-se e pelo manter-se em recepção ao que se abre.
- Páthos = deixar-se levar por; tolerar, suportar; deixar-se con-vocar por; disposição a.
- Arké = aquilo de onde algo surge e pelo qual esse “onde” não é deixado para trás mas que “o” segue constantemente determinando sua marcha.
BIBLIOGRAFIA :
Platão – Teeteto
Martin Heidegger – Que é isto a filosofia
Soren Kieerkegaard – As Obras do Amor -
Sigmund Freud – O mal estar na civilização – Edit. Civilização Brasileira
José Gurgel Lourenço – As três Ilusões – Univers. São Judas Tadeu – São Paulo/SP
Emmanuel Levinas – Quatro Leituras Talmudicas
Jean Jacques Rousseau – Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. In: Rousseau ( Obras Escolhidas) Coleção Os Pensadores Abril Cultural
Gilmar Zampieri – Eros, Philia e Ágape em Kierkegaard – Centro universitário La Salle – Canoas/RS da PUC- RS.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

UM OLHAR SOBRE O HOMEM E O MUNDO

PENSAR O MUNDO E O HOMEM
“O falso quando é homogêneo pode gerar o “verdadeiro”; o falso quando reunido numa certa ordem confere a si próprio certa realidade “ – Robert Bresson - Cineasta Francês.
As coisas estão submetidas a um conjunto de circunstancias da ordem dos fatos, do real, da facticidade, cuja absoluta eventualidade circunstancial dissolve as verdades e as fundamentações para a existência humana, e sua existência é absurda.
Há uma eventualidade circunstancial absoluta das coisas.
O mundo toma-se de absurdos.
O absurdo do mundo é simplesmente uma função de sua bruta imprevisibilidade e que nos escapa ao controle,é aquilo que ocorre de maneira eventual, circunstancial, sem necessidade, e que poderia ter acontecido de maneira diferente ou simplesmente não ter se efetuado, e é através dessa função de contingência bruta que se produz aversão, repulsa, enjôo, o que Heidegger chamou de “o tédio”, uma sensação de desgosto, de vazio, de aborrecimento e cansaço.
Ante esse espanto é necessário que o individuo reconheça sua liberdade diante disso.
O individuo tem de escolher seu próprio mundo, assim sugere Sartre.
Sustenta ainda Sartre que o homem é livre como individuo perante o mundo conturbado e caótico e deve estar para além dos que nomeiam para classificar e enquadrar em uma camisa de força o que não está ao seu alcance.
Sabe-se que a escolha da liberdade implica a não aceitação do mundo como ele se apresenta; isso é um dos pilares existenciais.
Vale acrescentar ainda ao contexto que há de se considerar também a incerteza da relação pacifica entre seres humanos diferentes, e a permanência da vida e do mundo breves como um suspiro que se alterna. Observando ainda que não mais se considera as relações orgânicas e privilegiam-se as relações mecânicas.
Outra questão a trazer para o entendimento é a tal autoridade. Não se consegue perceber que autoridade não quer dizer poder. Autoridade será sempre em qualquer instância um respeito moral que temos pelas qualidades, saberes, experiências e competências de alguém.
Ainda é preciso pontuar que a beleza e o horror, o sublime e a barbárie, a angústia e a inquietude, oscilam renitentes e imediatas neste mundo dominado pelo absurdo e pela insanidade humana sem limites.
Assim, o que está em jogo na urgência que hoje percorre o tempo e o espaço que remanesce, para não consubstanciar a tragédia em curso, é refletir a possibilidade de sonhar com o desaguar na busca do divino que em nós resta, e a utopia de buscar o caminho da via da epifania reveladora, isso que em ultima instância é a própria vida.
Necessário se faz aqui abrir um parêntese :
Cautela 1 : Que essa busca do divino que em nós remanesce e dessa via da epifania reveladora, não aliene o corpo e nem nos afaste do próximo na base do cada um por si só, em seu caminho exclusivo, em seu carma, em sua dor que não me importa e que não me afeta pois não é minha. Que essas buscas não excluam o viver comunitário terreno, a vida e o mundo comum corpóreo-material dessa grande família humana, nessa imensa casa chamada terra, ou que nos leve assim ao desprezo aos quatro elementos formadores comuns de todos nós.
Cautela 2 : Nem pensar que o “amar ao próximo como a ti mesmo” seja passaporte visado para a espiritualidade, ou franquia livre para o êxtase de uma espiritualização compulsória; mas sempre será sim e antes que tudo, a simples experiência de uma plena huma(u)nidade; apenas nos transformará, provavelmente, em humanos seguindo e segundo os objetivos e desejo original do divino que nos fez, criou e formou.
Fecha-se o parêntese.
Citei acima a tragédia, e, na dúvida, inquiro se vivemos sob o jugo do destino imutável da tragédia ou se vivemos um drama que traz a possibilidade de mudanças.
Será o sentido da vida, unicamente cumprir as vãs e falsas promessas de felicidade da sociedade do espetáculo imersa e emergente desse sistema capitalista em que tudo é objeto, mesmo as pessoas?
Até onde, a continuarmos sonâmbulos automatizados, haverá vida e mundo nessa humanidade de superficialidades e aparências?
Aonde se chega nesse faz-de-conta solidário, nesse faz-de-conta fraterno, nesse faz-de-conta de igualdade e de liberdade, nesse vazio de essência humana e nessa humanidade repleta do dia-bólico, que separa, que exclui, que discrimina?
Onde queremos chegar através dos juízos de valor e desejos de felicidades vigentes em que se encontram argumentos de toda ordem para sustentarem as ilusões que nos proporciona a “matrix” econômica dos sistemas sócio-políticos?
Como elaborar uma ética, uma moral, uma regra jurídico-normativa para uma raça de demônios, de modo a tornar viável a sua vida coletiva?
Terá razão plena a epigrafe de Robert Bresson, que encabeça esses rabiscos, de que o falso já se torna verdadeiro e real?
Antecipo aos que chegaram até aqui e possam enxergar pontos de um viés totalitário que não advogo homogeneidades ou concordâncias unânimes, posto que o contraditório, a diferença, a alteridade que soma a tese com a antítese e perfaz o caminho da síntese visando a emergência, é o caminho mais saudável que se possa trilhar e construir no encontro das respostas e soluções.
As diferenças é que articulam e reúnem, a unanimidade concordante majoritária tende a dissociar e excluir.
Vamos de poesia.
O pó da vida
Mesclado entre
Noite e cinzas
Noite e sombras
Move se entre claros fugazes
Entre trevas renitentes instantâneas
Suspira a melancolia no palco dessa vida. (Vilemar F. Costa)

E por aqui mais dúvidas :
Qual o papel e qual a função do ser e do estar humano nesse ato teatral que ora representamos?
A contingência e a facticidade exercem em definitivo o domínio colonial e a imposição imperial sobre os humanos? Haverá saída emancipatória?
De certo apenas muitas perguntas...
Ousando vislumbrar uma dialética posta de forma simples: o homem deve trazer a humanidade de volta ao homem - se o homem como espécie quiser sobreviver para obter a real e possível libertação e emancipação. Nós podemos até ousar dizer que estamos fazendo nosso melhor, mas como Winston Churchill disse: "Dizer que está fazendo o seu melhor não tem utilidade alguma. Nós devemos ter êxito fazendo o que é necessário."
E quando se está no escuro, e se quer luz, não apenas se pensa sobre isso mas busca- se acender uma vela e a erguemos, à altura do peito protegendo a chama com nosso tronco, para dissipar a escuridão. Não a colocamos à altura dos pés ou à altura da cabeça, se a queremos utilizar como luminária para tornar claro um caminho à frente.
“Nada é o que parece” – O Caibalion Hermético
“Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?
Ai, quem nos poderia valer?
... e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo
neste mundo definido” – Rainer Maria Rilke in “Elegias de Duíno”
Vilemar F. Costa – 15.11.2010

domingo, 12 de setembro de 2010

A PONTE

A PONTE
A emergência, o salto do pensamento em direção ao saber, resulta do conflito entre tese e antítese que gera a síntese parteira da eclosão do conhecimento.
A síntese sendo o ápice da técnica para se ir à emergência, que é o essencial além síntese para o entendimento, propicia o pensamento último, base da estrutura e construção do pensamento livre.
Ir ao essencial é a finalidade do pensar livre.
Da essência é que vai parir algum ensinamento gerador do som que irá girar o moinho dos corações e mentes.
Esse moinho produz a energia profunda e larga que integra o homem e o move a laborar na argamassa precisa na construção da ponte entre Deus e ele mesmo e entre Deus e a Terra.

F. Vilemar F. Costa