segunda-feira, 26 de novembro de 2007

OS TEMPLOS VIVOS PERDEM LUZ

O homem está entregue ao sonho, de sua sorte não cuidando e, com passo calado o céu vai dando voltas, e as horas do viver vai lhe furtando.

(frei Luis de Leon – monge místico espanhol do século 15)

Esquece o homem que nele contém tudo o que há no céu e na terra, o superior e o inferior, deixando-se na maioria das vezes se levar pelo inferior .

Em geral, para as pessoas isso não importa, porque estão totalmente absortas nas necessidades mundanas que elas mesmas criam desnecessária e abusivamente.

Guiam-se pelas formas e brilhos das ilusões temporais, não prestando mais atenção às questões mais elevadas do ser e de ser.

Fazem mau uso da liberdade com que são dotadas e dedicam-se às construções de palácios ao ego, verdadeiros pedestais para exibirem vaidades.

Primam pela ostentação, entre si, trocam favores e posições em benefícios próprios.

A alteridade jaz moribunda.

A solidariedade e a compaixão estão desfalecidas.

Impera o vazio que buscam preencher com títulos, bens e honrarias, fortalecendo o peso do corpo e dos sentidos, contra a fortaleza do espírito e da vida.

Utilizam-se de prerrogativas individuais, da vontade pessoal autoritária, do eu arbitrário e escudam-se em leis patrocinadas por grupos egóicos, para fomentar em cada sistema os erros logóicos, uma suposta verdade ou uma nova lei, em detrimento da verdade única que é a lei imutável do amor.

No coração do homem, a Luz se extingue ao correr dos dias.

Contudo a Escada ainda está posta, os anjos ainda rondam no espaço circundante, a Esperança ainda sopra e o anelo sobrevive.

Mesmo e apesar de todos os riscos.

Vilemar F Costa

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Um novo dia !

Derramado em cores.

prenhe de luz, vida, sons !

A renovação do corpo e da alma

O fluxo contínuo da vida

A fluidez da Vontade do Criador.


Saúdo – te dia novo

por tudo que tens a ensinar

e pelo caminho que a frente estendes.

dia de perdas e ganhos, buscas e quereres,

dia de desafios, conquistas e vazios,

mas que por existirem nos motivam ser .

a felicidade é nosso destino :

Felicidade na possibilidade única de um novo dia,

um novo processo, um novo progresso.


Dia que desponta

para que se possa admirar

a nova manhã e o novo entardecer,

embora noites se façam.

Dia pujante

para renovação do Amor profundo e largo,

rumo às alturas do outro.


Dia, fruto da Vontade de Deus

que num único dia nos criou.

E aquele foi um novo dia !

Vilemar F. Costa

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

VIDA E MORTE


Um dia sairei deste corpo que me abriga.

morrerei, indubitavelmente, e sempre mais cedo que possa pensar.

Então este mundo verei perecer.

os prazeres da forma e da carne, as honras, as riquezas materiais, o apego nas coisas e nas pessoas, as tristezas e aflições, tudo isso se dissipará ante meus olhos.

Os pecados que agora tenho como se fossem pequenos átomos, na realidade parecer-me-ão montanhas e tudo que acredito possuir de grande entendimento, conhecimento e saber estarão reduzidos a um quase nada.

Que rumo seguirei, ó minha alma, ao deixar esse corpo, seu veiculo até este momento ?

Para que lado hei de voltar ?

Porque caminho entrar ?

apenas uma sólida certeza : será exatamente por aquele caminho que encetei já nesta vida.

A escolha que fizer agora, neste momento, nesta vida, perdura em outra;

até a transmutação, até a transformação,

até a construção de um homem novo.

( Vilemar Costa )

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

BIFURCAÇÕES CONVERGENTES

Tudo está em todas as partes.

Qualquer coisa é todas as coisas.

O Sol é todas as estrelas,

e cada estrela é toda estrela e o Sol.

O que um homem faz é como se todos os homens o fizessem.

Qualquer homem é todo o homem.

Um homem que se desloca modifica as formas que o circundam.

Por isso não é injusto que uma desobediência num jardim longínquo contamine o gênero humano;

por isso não é injusto que a crucifixão de um só judeu cristificado baste para salvar os homens.

O certo é que, tarde ou cedo, todo homem realizará todas as coisas e saberá tudo.

Enquanto dormimos aqui, estamos despertos em outro lado e assim cada homem é dois homens.

O presente é indefinido,

o futuro não tem realidade senão como esperança presente.

o passado não tem realidade senão como lembrança presente.

então, é razoável admitir que tudo, tanto em cima como embaixo, obedece ao plano destinado a ser decifrado pelo homem, no decorrer de sua subida, pelo caminho da volta para a não-existência.

Vilemar F. Costa

A CERTEZA DAS INCERTEZAS

Vilemar F. Costa

Admitindo-se que o fundamento da alma individual se aparenta com o Fundamento Divino de toda existência, ou que o espírito de cada um é idêntico a Ele;

Admitindo-se a criação como imagem e semelhança a Ele;

Admitindo-se que esse Fundamento Divino manifestado é o Logos Encarnado;

Resta a questão: qual a natureza última do bem e do mal entranhados no ser, e qual o verdadeiro propósito e fim último da vida humana?

O homem é produto da acidentalidade durante a criação ou parte momentânea no projeto do que será o universo futuro?

Ou será fruto súbito do relance de um fugaz ponto?

Ou será um fugaz relance do ponto de equilíbrio de Treva e Luz?

Ou será que o que está na Treva e o que está na Luz se reconciliam no homem?

Na certeza, estas dúvidas revoluteiam o carma, o livre arbítrio, a ignorância, o sofrimento a miséria e a dor.

Vilemar F. Costa

“A certeza da certeza não raro faz o louco gritar” ( Lobão – cantor e compositor de pop-rock.)

domingo, 11 de novembro de 2007


QUIS CUSTODIAT CUSTODES?

(Quem vigiará os guardas?)

Vilemar F. Costa

A Justiça pára na porta das fábricas, das escolas, das sociedades ditas humanitárias, e das auto-intituladas, organizações místico – filosóficas – iniciáticas, até mesmo à porta das igrejas.

É que o homem moderno em seu mundo de fantasias e atrás dos muros e paredes de seus clubes, feudos, associações, escolas, arroga-se ao direito de exercer uma justiça, cada qual criando suas leis segundo suas conveniências e interesses, e pronunciando sentenças a seu bel prazer, ao deleite de seus interesses pessoais.

Este mundo de ilusão e fantasia mentais em que todos estão mergulhados, propicia ao homem pensar que vive atolado numa paz tranqüila, liberal e burguesa de um mundo exclusivo e particular, e dentro desta realidade irreal unilateralmente avocam a permissão de qualificar de insubordinados e descontentes aqueles que, sedentos e famintos, clamam por eqüidade, harmonia, cooperação, correlação e entendimento.

Grave é que para quebrar barreiras aos seus conceitos de justiça, chegam algumas vezes, num mal disfarçado interesse próprio, a fazer uso de uma complacência estudada, vazia e pérfida, dissimulando a justiça e o direito, de forma a conter as rebeliões ou insatisfações incontroladas que ocasionalmente surgem.

Outras vezes ignoram o direito e consideram agitadores e tolos idealistas aqueles que o buscam, ou então, opõem aos apelos por justiça, um coração frio e uma fria indiferença.

Algumas vezes, pressionado por alguma força que barre um desejo pessoal ou uma vontade do ego, ou que seja causa de um empecilho ou dificuldade a um amigo ou familiar próximo, ou a um projeto egoísta em sua vida, astuciosamente fica em concordância com uma limitada idéia de direito e uma castrada idéia de justiça, adequando interpretações de justiça e do direito para que elas não lhe atrapalhem seu intento, sua satisfação pessoal ou de alguém de seu círculo íntimo.

Outrossim, existem aqueles ávidos em que uma certa forma de justiça seja mantida porque foi essa forma de justiça, geralmente utilizada sub-repticiamente e de forma parcial, que os elevaram ao “trono” em que estão tornando os outros seus capachos e/ou bajuladores.

O fato é que a idéia de justiça está corrompida no interesse pessoal e pelo interesse de grupos que primem por manter seu status quo de favorecidos, de autoridades, de lideres dirigentes, de iluminados gurus ou de grandes mestres.

Constata-se também que para a mente fértil dos homens, justiça é editar leis e mais leis, regulamentar aqui e emendar acolá, submeter a coletividade ao terrorismo sutil de uma só pessoa ou de um grupo de pessoas que incentivam submissões, exclusões, desarmonias e paranóias e que também primam por construir muros ao invés de pontes.

E é assim que a justiça parcial desses homens, promove a cooptação e a corrupção, adultera e rotula direitos, subverte necessidades, responsabilidades e deveres nos tornando fantoches impessoais.

É público e notório que o maior fator de divisão e discórdia entre os homens é o interesse próprio, é a intromissão dos juízos e do egoísmo de cada um que desvirtua a visão exata das coisas.

O admirável é que não causa mais surpresa ou preocupação o fato de que se fomente o desprezo à justiça, à liberdade, à igualdade e à fraternidade tão necessárias ao desenvolvimento, evolução e sobrevivência da terra, do céu, do homem e do universo, de qualquer grupo ou sociedade, e principalmente do próprio ser humano (huma+uno), neste contexto múltiplo e diverso, comum ao macrocosmo e ao microcosmo.

Não causa mais espanto que a realidade das relações e da convivência entre os homens, mesmo entre os que se dizem homens de bem, seja pontuada na falta de justiça que hora é a incapacidade de nos indignarmos contra a injustiça e contra as atitudes arbitrárias e ditatoriais, outra hora é a falta de sensibilidade, a falta de solidariedade, a falta de misericórdia, a falta de compreensão e compaixão.

Mais grave ainda é que a falta de justiça é a falta de paz, pois uma das obras da justiça é a paz.

E também grave e cruel é que, em nome dessa equivocada e corrompida justiça de uns poucos, as pessoas sejam excluídas, perseguidas, marginalizadas, apedrejadas, despedaçadas e condenadas, sem qualquer respeito a direitos fundamentaios do indivíduo, à ética humana e a digna e fundamental alteridade do semelhante e da vida.

E assim a injustiça atravessa a soleira das portas, porque a vontade individual peca contra a vontade coletiva e porque as personalidades sempre são postas antes dos princípios de huma(u)nidade, eqüidade, entendimento, compreensão, solidariedade e compaixão.

Sem dúvida, qualquer pesquisador consciente compreenderá que todas as injustiças, as semi-eqüidades, a meia-justiça, resultam da ignorância e da ilusão do eu, da loucura que é tomar por realidade este mundo de necessidades fictícias vorazes que nós mesmos criamos, onde nada é duradouro, real e que nos satisfaça sempre, mundo de ilusões impermanentes que nos deixa cegos em relação à realidade primordial comum a todos os seres que é cuidar do ser e de ser, cuidar da vida e do partilhar das obras de Deus.

Contudo, como a verdadeira justiça não é rigor, mas sim acolhimento tal como fez o pai que acolheu o filho pródigo com a alegria de um banquete, a justiça se fará.

Como a verdadeira justiça é entendimento, esclarecimento, quando muito um chamado para uma retomada de rota, e não uma condenação sumária antecipada e indefensável, ela vingará.

A justiça vingará e a justiça será feita, porque a justiça é uma balança cujo eixo central fixo é a eqüidade do Amor, e onde ocorre a correlação equilibrada entre seus dois pratos, o Bem e o Mal, a Graça ou a Misericórdia e o Rigor ou a Força, tanto no sentido horizontal quanto no sentido vertical, e cuja pesagem se efetua por meio dos pratos da direita e o da esquerda, e também de dois outros pratos, o do alto e o de baixo.

Assim é a Lei da Justiça, e assim se manifesta a Justiça.

A justiça será feita porque o sol brilha igualmente sobre os bons e os maus, sobre os descobertos e os encobertos, sobre os vestidos e os nus, sobre os claudicantes mancos e sobre os de andar perfeito.

A justiça será feita porque justiça é ação, simples questão de causa e efeito que pode ser tarda, mas não falha.

A justiça vingará porque a justiça não é um fim, mas um meio de concórdia, conciliação e ajustamento entre os seres, mesmo quando isso representar uma forma de retificação e correção.

Justiça não é castigo, senão condução, ou se preferirmos recondução, do outro em nossos ombros para junto do caminho em caso de desvio ou perdição.

Justiça não é um fim, mas um meio de reaproximação, reforma e recuperação.

Justiça é escuta, conciliação e escolha, e não veredictos.

Portanto, um homem justo não deve perguntar que forma de justiça deve existir, mas sim como a sua humanidade deve chegar a um estado de ser em que, naturalmente, a justiça vigore automática e inerentemente nas correlações, de forma equânime, equilibrada e harmônica, impessoal, porém humana e realmente justa.

Por fim, justiça não julga, mas distribui eqüitativamente a medida com que o homem julga.

“Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, - diz o Cristo.

Também diz o Cristo, “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão saciados”, e como a fome e a sede são necessidades e não desejos, a justiça será feita.

Vilemar F. Costa

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

FOI ASSIM...

No decorrer da primavera de 1987, decidi por vários motivos pessoais – desocupado, ansioso, depressivo – empreender uma limpeza no quarto construído no fundo do quintal da casa.

Empreitada talvez difícil, talvez duvidosa.

Ao pé da porta giro a chave, embrulhos tolhem a entrada, contudo, já meio afobado consigo abri-la.

De dentro vem um bolor nauseabundo envolvendo-mee que provocou em mim o mais violento enjôo de que já tive notícia. O estomâgo revolvia-se numa verdadeira tortura física, minhas entranhas saltitavam. Após alguns minutos, adaptei-me à situação e me senti um pouco melhor.

Principio a investigar o ambiente e constato que é estreito, estreito e incômodo. Estreito e opressivo !

Virando apenas o rosto deparo-me com um retrato na parede direita que exibe um homem de bochechas penduradas, olhos saltados e ar cansado, com um palito pendurado no canto da bôca e nenhuma referencia sobre quem haveria de ser.

Já se passaram muitos minutos e eu ainda explorava o local no batente da porta de entrada.

Abaixo do retrato há uma velha estante, tôda carcomida, já bem roída em sua base pelos ratos que pululam em quantidades incríveis pelo assoalho, as portas estão velhas e esburacadas, as divisórias horizontais cobertas de excrementos de rato.

Um deles cruza minha frente e vejo que esses roedores possuem um rabo gordo e comprido que podemos comparar com um suculento pedaço de carne prontinho para ser devorado.

O gosto na bôca fez-me cuspir o chicle na palma da mão, examina-lo atentamente e tornar a colocá-lo na bôca.

Nesse preciso instante tenho dúvidas. Há momentos em que a dúvida me assalta no meio de minhas empreitadas.

Elas se dissipam quando de repente sinto uma terrível coceira na perna; é sempre assim – nas horas mais impróprias, pronto, começa a coceira.

Retiro, do bolso da bermuda, o anzol, pronto para esses momentos, e disponho a arranhar a coceira da perna; uma grande idéia e uma grande invenção essa do anzol coçador.

De passagem percebo que a batata da perna é macia.

Retomo a investigação e vejo uma almofada lilás cheia de alfinetes sobre a mesa no centro da sala. No canto à esquerda da mesa, um almanaque da sociedade de hipologia.

Despego-me bruscamente do olhar a mesa e lembro-me de que esqueci que aqui vim para limpar esse catre.

Eram quatro horas da tarde quando iniciei e defini começar pelo arquivo e o que dentro dele se encontra.

A essa altura, já no meio da sala, olho em volta e vejo tudo brilhando tão bestamente, um ofuscante brilho que me faz sentir vontade de sair, do quarto ou talvez seria sair de mim mesmo, de sair de minha pele pois em minha vida tudo era chato, chato demais.

Após um momento de reflexão convinha atribuir esse fenomeno ao mêdo, pois ele explica tudo... É o medo uma espécie de névoa que se origina de um certo descontrole, que provém da imperfeição de nossos sentidos e dos erros de nosso instinto.

Logo os músculos de meu rosto descontraem-se e percebo quão estupido e bêsta sou !

Ao longe, bem ao longe ouve-se um surdo arrastar de pés.

Estático no centro da sala sou mordido por piolhos, um cardume deles, em busca da carne macia na batata das pernas para sugar. Mas o que eles não percebem é a mão espalmada, pesada, que se abate sobre eles e os dizima, fazendo jorrar o sangue extorquido sobre o piso.

Avanço em direção ao arquivo de aço e vejo sobre ele uma fôlha de papel em que está rabiscado o seguinte :

“já é demais. Os ratos agora mordem o próprio rabo e se deliciam degustando-os, piolhos dão bicadas em minhas costas e na planta de meus pés, baratas sobrevoam ao redor da mesa; tudo isso é monotono demais. Penso quando se mostrará algo diferente de vez em quando. Falta imaginação a essa paisagem. Um pouco de criatividade não faria mal a ninguém.

Já não suporto mais essa tensão em que a monotonia me coloca e que me apavora. “

Fim do bilhete.

Esfrego o rosto com as mãos, balanço a cabeça, recuso-me a crer nesse delírio.

Volto para minha tarefa e eis que uma aranha esquisita (acho que é um escorpião) saiu de uma fresta no assoalho, olhou-me fixamente durante algum tempo, sempre movendo uma espécie de bigodinho e, de repente, injetou em si próprio todo o veneno contido em seu rabo.

Resumindo, suicidou-se diante de meus olhos. Mas, por quê escolher logo a mim para proceder de tal modo ? então não podia dar um jeito de fazer aquilo dentro de seu buraco? Fingi que não tinha visto, mas, francamente !

Dentro de casa também acontece de ver catitas a galope, cachorros engolindo gatos, lagartos atravessando as paredes ... mas as coisas são feitas com mais discrição. Não passa pela cabeça de ninguém usar um tal procedimento na frente dos outros, só para se exibir ...

Apresso-me, pois a noite se aproxima; providencio a chama de uma vela.

Então, penetra o quarto, vindo da entrada principal da casa, um murmúrio confuso como o de um enxame de abelhas. Estarão roncando ? Conversando ? Aqueles vagabundos, uns sem-vergonhas que ficam a beber, à toa pelas portas das casas, que passam por boas pela vida a fora; são eles.

Sopra , pelas frestas da única janela lateral, uma boa brisa.

E ao olhar para a janela, me deparo com aquela foto postada ao lado, essa de um homenzarrão hercúleo, moreno queimado de sol, com peito cabeludo, trazendo várias argolas penduradas nas orelhas, e usava uma franjinha caída sôbre a testa. Possuía um olhar ferino e penetrante e há, entre os dentes, pendendo dos lábios, uma corda que parece mastigar. É também outro desconhecido e nada para identificá-lo.

Pendurado ao lado da foto descubro um caderninho anotado com uma espécie de lista de despesas. Parece até um livro de poesias. Anotava o que pagava e o que não pagava.

Movo-me com mais cuidado pois a penumbra da noite me faz ficar mais cauteloso, evitar qualquer passo em falso, evitar assim esmagar alguma largarta, ou pisar no rabo de algum rato ou romper a fina pelicula do dorso de alguma aranha.

Para dar maior claridade queimo o papel do relatado bilhete e no chão desenha-se a sombra da rede que se encontra pendurada entre os armadores de ferro.

Então vejo um olho humano abaixo dela.

- Alguém perdeu ? Foi tirado à força ? Ou foi arrancado durante uma brincadeira de “retirar olhinho” ?

Quem sabe possa apenas ter caído num movimento brusco, afinal o olho, no fundo, não passa de um orgão mal preso, uma bolinha espetada numa das cavidades do homem, nada mais.

Que diabos! estou mais uma vez desviando-me da tarefa inicial de limpar o arquivo.

De volta, a noite já se fazia.

Avanço mais um pouco, abro a janela e o brilho do céu clareia o interior do quarto. Assim, posso ver o interruptor da lampada incandescente que jaz no centro do teto, e acendo-a.

No estado em que me acho, meio atordoado da penumbra de há pouco, meio enjoado do mofo, que ainda rescende, já me vejo no fundo da sala. Não existe nada de interessante lá, exceto um arquivo grande de bronze, cheio de gavetas.

Este arquivo, além de ir do chão ao teto, parece não ter fim num indefinido numero de gavetas.

Um senso de curiosidade e espanto, misturado com horror surgia dentro de mim ao abrir as primeiras gavetas, totalmente vazias.

Em frenético e louco movimento puxei mais uma gaveta, a de baixo, que se estendeu metros e metros de tamanho infinito. O tamanho da gaveta não importa. Nem o tempo para abri-la; mas sim a infinita parede que formam as infindáveis gavetas.

Com a visão já embaçada pelo suor que escorre caudalosamente da testa aos olhos, sinto como se do arquivo algo me observasse, como se ele olhasse de volta para mim, sem dó, imóvel, insensível, estando eu já do outro lado da sala, segurando o gancho frontal da gaveta.

E eis que de repente de dentro dela emerge violentamente, envolto num halo de um vermelho tão rico, tão escuro e tão vívido alguns personagens como que advindos de visões, mirações, sonhos ou delírios.

Um deles era tal qual o ex-presidente Médici, em traje preto semelhante a um balandrau templário, comprido até os tornozelos, mangas largas cobrindo os punhos, negro como um urubu e que estava à frente do cortejo portando uma adaga curvilinea brilhante, estando os demais com archotes reluzentes.

Eles caminhavam em direção a um globo de luz branca em cujo interior havia uma dama negra, totalmente despida, de seios rijos, pontiagudos, desafiantes e de cujo sexo exalava um vapor azulado semelhante a incensação feita com turíbulos.

Guardava o globo um pirralho, feio, cabeleira vasta desgrenhada, nariz adunco, olhos esverdeados, trajando apenas uma pequena sunga e com meneios e aparencia efeminada.

Para trás dele escorria uma longa cauda semelhante a cauda dos ratos que pululavam em redor do armário, gorda e balouçante.

Era uma espécie de ritual que iria se desenrolar.

Eis que surgidas não sei de onde, quatro pombas brancas iniciam circunvoluções sobre a cena. Mas suas asas pareciam as de um demônio.

Eu, paralisado, quase numa espécie de transe, sentia a terra tremer, ou seriam minhas pernas...

Eis que observo que da ponta da adaga pende um papel ou tecido quase transparente, semelhante a um papiro, ou seria um pergaminho.

Apavorado recuo e resvalo na parede o que me propicia um outro ângulo de visão da cena. Agora, sob o clarão reflexo das estrelas e da lua transpassando a janela, a cena se transforma numa espécie de missa com um coro cantado pelas pombas, tendo por celebrante o guardião da bolha e o tal ex-presidente Médici debulhando nas mãos um terço, ou seria um rosário budista; seu cortejo bate frenéticas palmas e a dama negra requebra-se como se num coito, ofegante.

Não lembro quanto tempo passo olhando essa mise-em-scéne, talvez não mais que cinco minutos ou quem sabe uma eternidade. Mas me preocupa se estariam essas cenas associadas ao demônio ou seriam por ventura fragmentos do além, ou imagens nada simbólicas de sombras do astral, ou será que isso que importa agora sejam não mais que ensinamentos ?

A certeza que tenho é que sofro o peso do torpor que do medo desaba sobre mim, e meio que em desmaio percebo ser muito tarde, simultaneamente temendo pela vida.

E da mesma forma com tudo começou, tudo terminou. Repentinamente, rude e bruscamente.

Do que narrei, o que me inquieta é saber porquê eu, uma mulher resolvida, 30 anos bem vividos, totalmente assumida em meu lado feminino, delicada e hetero, vim de ter essas projeções, essas visões de um mundo especificamente fálico, masculino, ativo ao ponto de me fazer narrar o sonhar acordado ainda utilizando-me de um narrador do genero masculino.

Mistérios do fantástico inconsciente ou fantasmas da alma que me pertubam...

O que sei de certo é que corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado, em plena madrugada, empapada de suor, ofegante e com muita sede, rumo ao meu quarto de dormir.

Foi tudo mais ou menos assim...
Vilemar F. Costa

domingo, 4 de novembro de 2007

OU UMA COISA OU OUTRA...

Vilemar F Costa

Há um abismo pendente ao corpo estendido que se revira em direção a ele por que é necessário.

É preciso levantar e cumprir a velha nova rotina que se processa desde há alguns anos.

E lá estava eu prestes a chegar, sofrida e sofregamente. Arrasto-me na cama vexada e enxovalhada sem saber o porquê de tão doloso sofrer. É sempre a mesma questão : que força estranha move-me a sempre e sempre, repetir e repetir, um dia atrás do outro, a mesma cena...

Só sei que há alguns anos não sou eu mesmo. Não me reconheço nos fugazes instantes de um lapso de tempo entre uma nuvem cinza do pensar e outra nuvem vazia, revejo-me tempos atrás, universitário brilhante, uma bela esposa, amada e amante, sonhos e desejos e esperanças a se amontoarem... Um brusco engasgue me traz à realidade.

Preciso sair da cama, penso nisso e esforço-me a cumprir essa vontade fraca e urgente, desde os primeiros albores do dia, pois também sei que em breve o estomago revolto precipitar-se-á pela boca em golfadas verdes pastosas.

É o inicio da síndrome.

O sol se torna imenso a invadir o quarto e ainda não precipitei-me do abismo da cama, nessa luta que travo não sei mais desde quando, se desde o inico da madrugada ou desde o fim da noite passada.

Ressurge a pergunta fatídica e amarga, mais amarga que a vontade incontrolável que começa a se apossar de minha boca seca, de meu corpo trêmulo, de minhas mãos suadas: que força estranha tem me empurrado pelas manhãs destes anos, que necessidade me conduz a provar do mesmo cálice ardente e rascante sempre e sempre, mesmo sabendo que tudo se repetirá novamente, os frêmitos, os tropeçares, as quedas, os desmaios e a incansavel luta para erguer-me da cama, antes que o vômito a inunde.

Ao erguer o dorso, o espelho reproduz o ser fantasmagórico que não reconheço. Havia de o ter retirado desse quarto, mas essa lembrança só ocorre quando desperto e luto para percorrer o quilométrico caminho entre a cama e o banheiro.

Sei que em breve tudo voltará ao normal, basta-me vomitar, nausear-me, respingar os olhos, aguar a boca e preparar-me para o primeiro gole.

Tudo se resolverá após o primeiro gole, que invariavelmente retornará, se não de todo, mas uma golfada virá ao chão, preparando o deslizar mais suave do segundo trago.

E retendo a segunda dose no estomago revolvido, o mundo começará a adquirir outra feição, menos cinza, menos sintomático, menos tremulo.

Talvez ganhe até uma côr antes que se esvazie o frasco do elixir.

Rezas, mandingas, promessas, juras, hospitalizações, internações, de nada adiantaram.

O momento agora requer o esforço de assomar o abismo à beira da cama, o chão úmido e frio que me espera,e percorrer a maratona até ao banheiro, não sem antes sentar-me à porta da geladeira rescendendo a bolor, azedo e fedido, para iniciar o ritual que me reconduzirá à normalidade, não mais tremer, nem vomitar, ansiar, suar frio...

Vencerei esta vez, porém quantas mais vencerei e quantas mais virão a serem vencidas...

Preciso dar um basta nisso, preciso descobrir o que me arrasta sempre ao mesmo despertar no alvor matinal, ao esforço de erguer, caminhar, golfar, regurgitar, ingerir e recomeçar...

Ah vida real, como és cruel! Que sentido trazes, que partido tomas!

Ah ! mas hei de buscar a saída para esse remoinho que me assola.

Contudo só após despegar-me da porta da geladeira e do copo pegajoso que jaz colado entre as duas mãos em tremor.

Mas buscarei.

Preciso apenas parar de contemplar esse abismo que se faz entre o estrado da cama, o chão frio e úmido, e dar o primeiro passo para a vida.

Ou desligar a camera em que esse mesmo filme roda já há alguns anos, de uma só vez.

Ou uma coisa ou outra...