quarta-feira, 7 de novembro de 2007

FOI ASSIM...

No decorrer da primavera de 1987, decidi por vários motivos pessoais – desocupado, ansioso, depressivo – empreender uma limpeza no quarto construído no fundo do quintal da casa.

Empreitada talvez difícil, talvez duvidosa.

Ao pé da porta giro a chave, embrulhos tolhem a entrada, contudo, já meio afobado consigo abri-la.

De dentro vem um bolor nauseabundo envolvendo-mee que provocou em mim o mais violento enjôo de que já tive notícia. O estomâgo revolvia-se numa verdadeira tortura física, minhas entranhas saltitavam. Após alguns minutos, adaptei-me à situação e me senti um pouco melhor.

Principio a investigar o ambiente e constato que é estreito, estreito e incômodo. Estreito e opressivo !

Virando apenas o rosto deparo-me com um retrato na parede direita que exibe um homem de bochechas penduradas, olhos saltados e ar cansado, com um palito pendurado no canto da bôca e nenhuma referencia sobre quem haveria de ser.

Já se passaram muitos minutos e eu ainda explorava o local no batente da porta de entrada.

Abaixo do retrato há uma velha estante, tôda carcomida, já bem roída em sua base pelos ratos que pululam em quantidades incríveis pelo assoalho, as portas estão velhas e esburacadas, as divisórias horizontais cobertas de excrementos de rato.

Um deles cruza minha frente e vejo que esses roedores possuem um rabo gordo e comprido que podemos comparar com um suculento pedaço de carne prontinho para ser devorado.

O gosto na bôca fez-me cuspir o chicle na palma da mão, examina-lo atentamente e tornar a colocá-lo na bôca.

Nesse preciso instante tenho dúvidas. Há momentos em que a dúvida me assalta no meio de minhas empreitadas.

Elas se dissipam quando de repente sinto uma terrível coceira na perna; é sempre assim – nas horas mais impróprias, pronto, começa a coceira.

Retiro, do bolso da bermuda, o anzol, pronto para esses momentos, e disponho a arranhar a coceira da perna; uma grande idéia e uma grande invenção essa do anzol coçador.

De passagem percebo que a batata da perna é macia.

Retomo a investigação e vejo uma almofada lilás cheia de alfinetes sobre a mesa no centro da sala. No canto à esquerda da mesa, um almanaque da sociedade de hipologia.

Despego-me bruscamente do olhar a mesa e lembro-me de que esqueci que aqui vim para limpar esse catre.

Eram quatro horas da tarde quando iniciei e defini começar pelo arquivo e o que dentro dele se encontra.

A essa altura, já no meio da sala, olho em volta e vejo tudo brilhando tão bestamente, um ofuscante brilho que me faz sentir vontade de sair, do quarto ou talvez seria sair de mim mesmo, de sair de minha pele pois em minha vida tudo era chato, chato demais.

Após um momento de reflexão convinha atribuir esse fenomeno ao mêdo, pois ele explica tudo... É o medo uma espécie de névoa que se origina de um certo descontrole, que provém da imperfeição de nossos sentidos e dos erros de nosso instinto.

Logo os músculos de meu rosto descontraem-se e percebo quão estupido e bêsta sou !

Ao longe, bem ao longe ouve-se um surdo arrastar de pés.

Estático no centro da sala sou mordido por piolhos, um cardume deles, em busca da carne macia na batata das pernas para sugar. Mas o que eles não percebem é a mão espalmada, pesada, que se abate sobre eles e os dizima, fazendo jorrar o sangue extorquido sobre o piso.

Avanço em direção ao arquivo de aço e vejo sobre ele uma fôlha de papel em que está rabiscado o seguinte :

“já é demais. Os ratos agora mordem o próprio rabo e se deliciam degustando-os, piolhos dão bicadas em minhas costas e na planta de meus pés, baratas sobrevoam ao redor da mesa; tudo isso é monotono demais. Penso quando se mostrará algo diferente de vez em quando. Falta imaginação a essa paisagem. Um pouco de criatividade não faria mal a ninguém.

Já não suporto mais essa tensão em que a monotonia me coloca e que me apavora. “

Fim do bilhete.

Esfrego o rosto com as mãos, balanço a cabeça, recuso-me a crer nesse delírio.

Volto para minha tarefa e eis que uma aranha esquisita (acho que é um escorpião) saiu de uma fresta no assoalho, olhou-me fixamente durante algum tempo, sempre movendo uma espécie de bigodinho e, de repente, injetou em si próprio todo o veneno contido em seu rabo.

Resumindo, suicidou-se diante de meus olhos. Mas, por quê escolher logo a mim para proceder de tal modo ? então não podia dar um jeito de fazer aquilo dentro de seu buraco? Fingi que não tinha visto, mas, francamente !

Dentro de casa também acontece de ver catitas a galope, cachorros engolindo gatos, lagartos atravessando as paredes ... mas as coisas são feitas com mais discrição. Não passa pela cabeça de ninguém usar um tal procedimento na frente dos outros, só para se exibir ...

Apresso-me, pois a noite se aproxima; providencio a chama de uma vela.

Então, penetra o quarto, vindo da entrada principal da casa, um murmúrio confuso como o de um enxame de abelhas. Estarão roncando ? Conversando ? Aqueles vagabundos, uns sem-vergonhas que ficam a beber, à toa pelas portas das casas, que passam por boas pela vida a fora; são eles.

Sopra , pelas frestas da única janela lateral, uma boa brisa.

E ao olhar para a janela, me deparo com aquela foto postada ao lado, essa de um homenzarrão hercúleo, moreno queimado de sol, com peito cabeludo, trazendo várias argolas penduradas nas orelhas, e usava uma franjinha caída sôbre a testa. Possuía um olhar ferino e penetrante e há, entre os dentes, pendendo dos lábios, uma corda que parece mastigar. É também outro desconhecido e nada para identificá-lo.

Pendurado ao lado da foto descubro um caderninho anotado com uma espécie de lista de despesas. Parece até um livro de poesias. Anotava o que pagava e o que não pagava.

Movo-me com mais cuidado pois a penumbra da noite me faz ficar mais cauteloso, evitar qualquer passo em falso, evitar assim esmagar alguma largarta, ou pisar no rabo de algum rato ou romper a fina pelicula do dorso de alguma aranha.

Para dar maior claridade queimo o papel do relatado bilhete e no chão desenha-se a sombra da rede que se encontra pendurada entre os armadores de ferro.

Então vejo um olho humano abaixo dela.

- Alguém perdeu ? Foi tirado à força ? Ou foi arrancado durante uma brincadeira de “retirar olhinho” ?

Quem sabe possa apenas ter caído num movimento brusco, afinal o olho, no fundo, não passa de um orgão mal preso, uma bolinha espetada numa das cavidades do homem, nada mais.

Que diabos! estou mais uma vez desviando-me da tarefa inicial de limpar o arquivo.

De volta, a noite já se fazia.

Avanço mais um pouco, abro a janela e o brilho do céu clareia o interior do quarto. Assim, posso ver o interruptor da lampada incandescente que jaz no centro do teto, e acendo-a.

No estado em que me acho, meio atordoado da penumbra de há pouco, meio enjoado do mofo, que ainda rescende, já me vejo no fundo da sala. Não existe nada de interessante lá, exceto um arquivo grande de bronze, cheio de gavetas.

Este arquivo, além de ir do chão ao teto, parece não ter fim num indefinido numero de gavetas.

Um senso de curiosidade e espanto, misturado com horror surgia dentro de mim ao abrir as primeiras gavetas, totalmente vazias.

Em frenético e louco movimento puxei mais uma gaveta, a de baixo, que se estendeu metros e metros de tamanho infinito. O tamanho da gaveta não importa. Nem o tempo para abri-la; mas sim a infinita parede que formam as infindáveis gavetas.

Com a visão já embaçada pelo suor que escorre caudalosamente da testa aos olhos, sinto como se do arquivo algo me observasse, como se ele olhasse de volta para mim, sem dó, imóvel, insensível, estando eu já do outro lado da sala, segurando o gancho frontal da gaveta.

E eis que de repente de dentro dela emerge violentamente, envolto num halo de um vermelho tão rico, tão escuro e tão vívido alguns personagens como que advindos de visões, mirações, sonhos ou delírios.

Um deles era tal qual o ex-presidente Médici, em traje preto semelhante a um balandrau templário, comprido até os tornozelos, mangas largas cobrindo os punhos, negro como um urubu e que estava à frente do cortejo portando uma adaga curvilinea brilhante, estando os demais com archotes reluzentes.

Eles caminhavam em direção a um globo de luz branca em cujo interior havia uma dama negra, totalmente despida, de seios rijos, pontiagudos, desafiantes e de cujo sexo exalava um vapor azulado semelhante a incensação feita com turíbulos.

Guardava o globo um pirralho, feio, cabeleira vasta desgrenhada, nariz adunco, olhos esverdeados, trajando apenas uma pequena sunga e com meneios e aparencia efeminada.

Para trás dele escorria uma longa cauda semelhante a cauda dos ratos que pululavam em redor do armário, gorda e balouçante.

Era uma espécie de ritual que iria se desenrolar.

Eis que surgidas não sei de onde, quatro pombas brancas iniciam circunvoluções sobre a cena. Mas suas asas pareciam as de um demônio.

Eu, paralisado, quase numa espécie de transe, sentia a terra tremer, ou seriam minhas pernas...

Eis que observo que da ponta da adaga pende um papel ou tecido quase transparente, semelhante a um papiro, ou seria um pergaminho.

Apavorado recuo e resvalo na parede o que me propicia um outro ângulo de visão da cena. Agora, sob o clarão reflexo das estrelas e da lua transpassando a janela, a cena se transforma numa espécie de missa com um coro cantado pelas pombas, tendo por celebrante o guardião da bolha e o tal ex-presidente Médici debulhando nas mãos um terço, ou seria um rosário budista; seu cortejo bate frenéticas palmas e a dama negra requebra-se como se num coito, ofegante.

Não lembro quanto tempo passo olhando essa mise-em-scéne, talvez não mais que cinco minutos ou quem sabe uma eternidade. Mas me preocupa se estariam essas cenas associadas ao demônio ou seriam por ventura fragmentos do além, ou imagens nada simbólicas de sombras do astral, ou será que isso que importa agora sejam não mais que ensinamentos ?

A certeza que tenho é que sofro o peso do torpor que do medo desaba sobre mim, e meio que em desmaio percebo ser muito tarde, simultaneamente temendo pela vida.

E da mesma forma com tudo começou, tudo terminou. Repentinamente, rude e bruscamente.

Do que narrei, o que me inquieta é saber porquê eu, uma mulher resolvida, 30 anos bem vividos, totalmente assumida em meu lado feminino, delicada e hetero, vim de ter essas projeções, essas visões de um mundo especificamente fálico, masculino, ativo ao ponto de me fazer narrar o sonhar acordado ainda utilizando-me de um narrador do genero masculino.

Mistérios do fantástico inconsciente ou fantasmas da alma que me pertubam...

O que sei de certo é que corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado, em plena madrugada, empapada de suor, ofegante e com muita sede, rumo ao meu quarto de dormir.

Foi tudo mais ou menos assim...
Vilemar F. Costa

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