domingo, 4 de novembro de 2007

OU UMA COISA OU OUTRA...

Vilemar F Costa

Há um abismo pendente ao corpo estendido que se revira em direção a ele por que é necessário.

É preciso levantar e cumprir a velha nova rotina que se processa desde há alguns anos.

E lá estava eu prestes a chegar, sofrida e sofregamente. Arrasto-me na cama vexada e enxovalhada sem saber o porquê de tão doloso sofrer. É sempre a mesma questão : que força estranha move-me a sempre e sempre, repetir e repetir, um dia atrás do outro, a mesma cena...

Só sei que há alguns anos não sou eu mesmo. Não me reconheço nos fugazes instantes de um lapso de tempo entre uma nuvem cinza do pensar e outra nuvem vazia, revejo-me tempos atrás, universitário brilhante, uma bela esposa, amada e amante, sonhos e desejos e esperanças a se amontoarem... Um brusco engasgue me traz à realidade.

Preciso sair da cama, penso nisso e esforço-me a cumprir essa vontade fraca e urgente, desde os primeiros albores do dia, pois também sei que em breve o estomago revolto precipitar-se-á pela boca em golfadas verdes pastosas.

É o inicio da síndrome.

O sol se torna imenso a invadir o quarto e ainda não precipitei-me do abismo da cama, nessa luta que travo não sei mais desde quando, se desde o inico da madrugada ou desde o fim da noite passada.

Ressurge a pergunta fatídica e amarga, mais amarga que a vontade incontrolável que começa a se apossar de minha boca seca, de meu corpo trêmulo, de minhas mãos suadas: que força estranha tem me empurrado pelas manhãs destes anos, que necessidade me conduz a provar do mesmo cálice ardente e rascante sempre e sempre, mesmo sabendo que tudo se repetirá novamente, os frêmitos, os tropeçares, as quedas, os desmaios e a incansavel luta para erguer-me da cama, antes que o vômito a inunde.

Ao erguer o dorso, o espelho reproduz o ser fantasmagórico que não reconheço. Havia de o ter retirado desse quarto, mas essa lembrança só ocorre quando desperto e luto para percorrer o quilométrico caminho entre a cama e o banheiro.

Sei que em breve tudo voltará ao normal, basta-me vomitar, nausear-me, respingar os olhos, aguar a boca e preparar-me para o primeiro gole.

Tudo se resolverá após o primeiro gole, que invariavelmente retornará, se não de todo, mas uma golfada virá ao chão, preparando o deslizar mais suave do segundo trago.

E retendo a segunda dose no estomago revolvido, o mundo começará a adquirir outra feição, menos cinza, menos sintomático, menos tremulo.

Talvez ganhe até uma côr antes que se esvazie o frasco do elixir.

Rezas, mandingas, promessas, juras, hospitalizações, internações, de nada adiantaram.

O momento agora requer o esforço de assomar o abismo à beira da cama, o chão úmido e frio que me espera,e percorrer a maratona até ao banheiro, não sem antes sentar-me à porta da geladeira rescendendo a bolor, azedo e fedido, para iniciar o ritual que me reconduzirá à normalidade, não mais tremer, nem vomitar, ansiar, suar frio...

Vencerei esta vez, porém quantas mais vencerei e quantas mais virão a serem vencidas...

Preciso dar um basta nisso, preciso descobrir o que me arrasta sempre ao mesmo despertar no alvor matinal, ao esforço de erguer, caminhar, golfar, regurgitar, ingerir e recomeçar...

Ah vida real, como és cruel! Que sentido trazes, que partido tomas!

Ah ! mas hei de buscar a saída para esse remoinho que me assola.

Contudo só após despegar-me da porta da geladeira e do copo pegajoso que jaz colado entre as duas mãos em tremor.

Mas buscarei.

Preciso apenas parar de contemplar esse abismo que se faz entre o estrado da cama, o chão frio e úmido, e dar o primeiro passo para a vida.

Ou desligar a camera em que esse mesmo filme roda já há alguns anos, de uma só vez.

Ou uma coisa ou outra...

Um comentário:

Gerlane disse...

É preciso superar a dor
pra que sobreviva o amor.
O tempo, ainda há para novas emoções.
A força, para buscarmos evoluções.
O natural dom de amar,
Tentemos por ele recomeçar.

Abraços, amigo,

Gerlane