domingo, 11 de novembro de 2007


QUIS CUSTODIAT CUSTODES?

(Quem vigiará os guardas?)

Vilemar F. Costa

A Justiça pára na porta das fábricas, das escolas, das sociedades ditas humanitárias, e das auto-intituladas, organizações místico – filosóficas – iniciáticas, até mesmo à porta das igrejas.

É que o homem moderno em seu mundo de fantasias e atrás dos muros e paredes de seus clubes, feudos, associações, escolas, arroga-se ao direito de exercer uma justiça, cada qual criando suas leis segundo suas conveniências e interesses, e pronunciando sentenças a seu bel prazer, ao deleite de seus interesses pessoais.

Este mundo de ilusão e fantasia mentais em que todos estão mergulhados, propicia ao homem pensar que vive atolado numa paz tranqüila, liberal e burguesa de um mundo exclusivo e particular, e dentro desta realidade irreal unilateralmente avocam a permissão de qualificar de insubordinados e descontentes aqueles que, sedentos e famintos, clamam por eqüidade, harmonia, cooperação, correlação e entendimento.

Grave é que para quebrar barreiras aos seus conceitos de justiça, chegam algumas vezes, num mal disfarçado interesse próprio, a fazer uso de uma complacência estudada, vazia e pérfida, dissimulando a justiça e o direito, de forma a conter as rebeliões ou insatisfações incontroladas que ocasionalmente surgem.

Outras vezes ignoram o direito e consideram agitadores e tolos idealistas aqueles que o buscam, ou então, opõem aos apelos por justiça, um coração frio e uma fria indiferença.

Algumas vezes, pressionado por alguma força que barre um desejo pessoal ou uma vontade do ego, ou que seja causa de um empecilho ou dificuldade a um amigo ou familiar próximo, ou a um projeto egoísta em sua vida, astuciosamente fica em concordância com uma limitada idéia de direito e uma castrada idéia de justiça, adequando interpretações de justiça e do direito para que elas não lhe atrapalhem seu intento, sua satisfação pessoal ou de alguém de seu círculo íntimo.

Outrossim, existem aqueles ávidos em que uma certa forma de justiça seja mantida porque foi essa forma de justiça, geralmente utilizada sub-repticiamente e de forma parcial, que os elevaram ao “trono” em que estão tornando os outros seus capachos e/ou bajuladores.

O fato é que a idéia de justiça está corrompida no interesse pessoal e pelo interesse de grupos que primem por manter seu status quo de favorecidos, de autoridades, de lideres dirigentes, de iluminados gurus ou de grandes mestres.

Constata-se também que para a mente fértil dos homens, justiça é editar leis e mais leis, regulamentar aqui e emendar acolá, submeter a coletividade ao terrorismo sutil de uma só pessoa ou de um grupo de pessoas que incentivam submissões, exclusões, desarmonias e paranóias e que também primam por construir muros ao invés de pontes.

E é assim que a justiça parcial desses homens, promove a cooptação e a corrupção, adultera e rotula direitos, subverte necessidades, responsabilidades e deveres nos tornando fantoches impessoais.

É público e notório que o maior fator de divisão e discórdia entre os homens é o interesse próprio, é a intromissão dos juízos e do egoísmo de cada um que desvirtua a visão exata das coisas.

O admirável é que não causa mais surpresa ou preocupação o fato de que se fomente o desprezo à justiça, à liberdade, à igualdade e à fraternidade tão necessárias ao desenvolvimento, evolução e sobrevivência da terra, do céu, do homem e do universo, de qualquer grupo ou sociedade, e principalmente do próprio ser humano (huma+uno), neste contexto múltiplo e diverso, comum ao macrocosmo e ao microcosmo.

Não causa mais espanto que a realidade das relações e da convivência entre os homens, mesmo entre os que se dizem homens de bem, seja pontuada na falta de justiça que hora é a incapacidade de nos indignarmos contra a injustiça e contra as atitudes arbitrárias e ditatoriais, outra hora é a falta de sensibilidade, a falta de solidariedade, a falta de misericórdia, a falta de compreensão e compaixão.

Mais grave ainda é que a falta de justiça é a falta de paz, pois uma das obras da justiça é a paz.

E também grave e cruel é que, em nome dessa equivocada e corrompida justiça de uns poucos, as pessoas sejam excluídas, perseguidas, marginalizadas, apedrejadas, despedaçadas e condenadas, sem qualquer respeito a direitos fundamentaios do indivíduo, à ética humana e a digna e fundamental alteridade do semelhante e da vida.

E assim a injustiça atravessa a soleira das portas, porque a vontade individual peca contra a vontade coletiva e porque as personalidades sempre são postas antes dos princípios de huma(u)nidade, eqüidade, entendimento, compreensão, solidariedade e compaixão.

Sem dúvida, qualquer pesquisador consciente compreenderá que todas as injustiças, as semi-eqüidades, a meia-justiça, resultam da ignorância e da ilusão do eu, da loucura que é tomar por realidade este mundo de necessidades fictícias vorazes que nós mesmos criamos, onde nada é duradouro, real e que nos satisfaça sempre, mundo de ilusões impermanentes que nos deixa cegos em relação à realidade primordial comum a todos os seres que é cuidar do ser e de ser, cuidar da vida e do partilhar das obras de Deus.

Contudo, como a verdadeira justiça não é rigor, mas sim acolhimento tal como fez o pai que acolheu o filho pródigo com a alegria de um banquete, a justiça se fará.

Como a verdadeira justiça é entendimento, esclarecimento, quando muito um chamado para uma retomada de rota, e não uma condenação sumária antecipada e indefensável, ela vingará.

A justiça vingará e a justiça será feita, porque a justiça é uma balança cujo eixo central fixo é a eqüidade do Amor, e onde ocorre a correlação equilibrada entre seus dois pratos, o Bem e o Mal, a Graça ou a Misericórdia e o Rigor ou a Força, tanto no sentido horizontal quanto no sentido vertical, e cuja pesagem se efetua por meio dos pratos da direita e o da esquerda, e também de dois outros pratos, o do alto e o de baixo.

Assim é a Lei da Justiça, e assim se manifesta a Justiça.

A justiça será feita porque o sol brilha igualmente sobre os bons e os maus, sobre os descobertos e os encobertos, sobre os vestidos e os nus, sobre os claudicantes mancos e sobre os de andar perfeito.

A justiça será feita porque justiça é ação, simples questão de causa e efeito que pode ser tarda, mas não falha.

A justiça vingará porque a justiça não é um fim, mas um meio de concórdia, conciliação e ajustamento entre os seres, mesmo quando isso representar uma forma de retificação e correção.

Justiça não é castigo, senão condução, ou se preferirmos recondução, do outro em nossos ombros para junto do caminho em caso de desvio ou perdição.

Justiça não é um fim, mas um meio de reaproximação, reforma e recuperação.

Justiça é escuta, conciliação e escolha, e não veredictos.

Portanto, um homem justo não deve perguntar que forma de justiça deve existir, mas sim como a sua humanidade deve chegar a um estado de ser em que, naturalmente, a justiça vigore automática e inerentemente nas correlações, de forma equânime, equilibrada e harmônica, impessoal, porém humana e realmente justa.

Por fim, justiça não julga, mas distribui eqüitativamente a medida com que o homem julga.

“Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, - diz o Cristo.

Também diz o Cristo, “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão saciados”, e como a fome e a sede são necessidades e não desejos, a justiça será feita.

Vilemar F. Costa

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