segunda-feira, 3 de março de 2008

O TEMPLO - UMA INTERSEÇÃO

O TEMPLO - UMA INTERSECÇÃO ENTRE O CÉU E A TERRA
“Não sabeis que sois templo de Deus, que o espírito de Deus habita em vós?” (I Cor.3)
Antes que o homem dominasse a arte da construção, o mundo era todo ele a morada da Divindade.
Com o advento da arte de construir, o homem transferiu os elementos naturais para o interior das casas erguidas para tal fim.
As arvores transformam-se em colunas, o céu em teto, a pedra em altar, a nascente de água em pia.
Mais tarde quando o Templo passou a evocar a Jerusalém Celeste, as janelas representavam a hospitalidade e a caridade, os vitrais as sagradas escrituras, o pavimento o fundamento da fé, as vigas os princípios do mundo e assim por diante.
Templo (do latim : templum) é um edifício consagrado, lugar respeitável e sagrado, e num sentido mais profundo, um templo é a habitação de Deus, local de contemplação e da presença divina.
Na antiguidade significava particularmente o quadrado imaginário traçado pelo sacerdote, através de linhas imaginárias, primeiro de leste a oeste e a seguir por outra perpendicular de norte a sul.
Fundamentais entre todos os povos e culturas, as origens dos templos se perdem nos primórdios da civilização humana desde os primeiros hominídeos nômades que idealizaram seus templos sob a abobada celeste no meio das florestas e savanas, passando pelos sumérios, babilônios, egípcios, gregos e romanos, tendo esses três últimos influenciado todas as culturas posteriores.
Fruto deste amálgama, tanto física quanto espiritual, metafísica e mística, das diversas contribuições das antigas civilizações, dos agrupamentos medievais surgiu o Templo Maçônico.
A construção dos templos na idade média era baseada na quadratura do círculo, evocando a Jerusalém Sagrada Apocalíptica conforme o livro Apocalipse de João capítulo 21 de 9 a 16.
O circulo e o quadrado são símbolos primordiais, o primeiro de Deus em sua Perfeição e Unidade ilimitada e o segundo o homem, o fundamento, a base estável imagem da Fidelidade, Imutabilidade e Eternidade de Deus
Interessante notar é que etimologicamente Templo deriva de cortar, talhar, que nos remete aos antigos construtores talhadores de pedra e ao simbolismo maçônico de “talhar a pedra”.
E no talhar da pedra, a Maçonaria se propõe a erguer templos morais e éticos, templos em honra das virtudes, templos sagrados onde sejam glorificados o Direito, a Justiça e a Verdade.
Seguindo essa linha de raciocínio e abstraindo o que concerne às formas físicas e estruturais de um templo, podemos perceber que o templo é também cada um de nós, abóbadas que recobrem um espírito e uma alma.
Buscando um significado de templo através das escrituras tradicionais, descobre-se na Bíblia que no levantar do Templo, não se ouvia o som do machado, dos martelos ou de qualquer outra ferramenta de metal, e que metais como ferro, cobre e ouro presentes na formação da matéria do homem, teriam sido trabalhados fora da área de construção do templo.
A questão dos metais que também estão presentes no sangue humano, é mais bem explicada na tradição gnóstica em que se revela o trabalho alquímico a ser feito no atanor cardíaco, para retificar ou melhor dizendo, fazer retornar o sangue ao seu composto original lucífero.
A simbologia desse trecho indica que na construção do Templo se faz uso de outros instrumentos que quase sempre não serão os instrumentos usados pelos homens no seu afã cotidiano, e que em alguns laboratórios serão usados instrumentos angélicos e divinos, não feitos pela mão humana.
A Bíblia ainda revela que madeiras, tecidos de linho, ouro e alguns outros materiais usados na construção do Templo vieram de “terras estrangeiras” (Líbano, Tiro, Fenícia, Egito, etc.) e que também a mão de obra especializada fôra estrangeira, emergindo daí um simbolismo que mostra a nossa condição de homens “exilados” neste plano mental e físico, homens submergidos no Egito deste baixo mundo, para os quais é necessário buscar materiais e instrumentos para o soerguimento de nosso templo além da realidade mental e física terrenas, que é preciso o esforço de laborar a terra do monte Tabor e, simultaneamente, voar acima do Gólgota junto dos seres angélicos.
Comprova-se também, por esta passagem, a assertiva da Tradição que fala serem os anjos os que poderão nos ajudar na obra templária.
Fica claro por esses símbolos que estamos todos enfermos e indefesos, que precisamos curar-nos para reconstruir o templo devastado e que para curar-nos precisamos de um medicamento externo a nós, algo como a elaboração do ouro dos alquimistas que purificará nosso coração, elevará nosso espírito ao Eterno, nos dotará de Força e Sabedoria, e nesse ponto a Beleza nos adornará.
Notamos também que em todas as tradições o templo é ainda símbolo do coração e, como o coração, o templo é um símbolo do centro, do Paraíso, da Terra Santa, coração que é ponto de partida na interação entre o Céu e a Terra e o ponto de regresso à Terra Verdadeira, o retorno à Terra Templária de que somos oriundos.
Vale saber que colocando o coração como sendo o templo interior, os Mestres da Sabedoria revelam ainda que a Jóia do Lótus no coração do homem é também o Sol Interior ao redor do qual deveriam fazer a circunvolução todos os componentes de nosso corpo.
Por outro lado, a questão que nos acompanha no Caminho é saber como o homem quedado será capaz de captar a Luz salvadora desse Sol e escapar para sempre do ciclo infinito da vida e da morte, da roda da fatalidade, o problema que se apresenta é saber como o homem caído se libertará da cadeia da Necessidade e encontrará a Palavra Perdida.
Mas a resposta vem sendo apontada desde tempos imemoriais por todos os Mestres.
A resposta soprada ao ouvido é que a panacéia se encontra no templo interior do coração, que essa fórmula incorpora o Espírito ígneo que une o céu à terra, que o templo interior do coração é o ponto onde reside a parte do nome de Deus que está em nós.
Os ensinamentos dos Iluminados mostram sempre que a reconstrução do templo interior no coração do homem é a solução para o homem caído se erguer, o pólo receptor que captará a Luz Ígnea de seu Sol Interior e que o libertará da roda do Samsara pela prática do Amor e da Verdade, do Entendimento e da Compaixão, da Fraternidade e da Solidariedade.
Resta – nos o trabalho de ousar, querer, bater e pedir que o Nous contido na panacéia cardíaca, fruirá em todo nosso ser, nos trará a cura e abrirá nosso ouvido ao som da Palavra Perdida. Mas para tanto é preciso Saber.
A realidade do Templo é onipresente no interior e exterior do ser humano e representativa, tanto do microcosmo quanto do macrocosmo, estando no centro do templo o enigma sagrado do qual a compreensão que dele obtivermos poderá operar em nós a metanóia que modificará nossas vidas.
Tal compreensão nos remetendo ao conhecimento de que em nós há um templo interior, e que nele há o interior do templo que é o seu mais essencial, a fonte originária de todos, aquilo que deve ser buscado para chegar-se ao complexo envoltório, ao invólucro que é a casca do fruto interior que jaz nos templos.
Nessa compreensão cruzamos o umbral do Entendimento pelo qual o Templo Interior se apresenta como indicativo para o templo sutil e para toda a geografia do mundo sutil, mundo velado aos nossos olhos qual tesouro escondido.
Seguindo essa experiência percebamos o templo dentro de nosso corpo e que será através dessa experiência encarnada de cada um de nós que se desvendará esse templo-tesouro escondido.
A propósito da palavra “encarnada” ela evoca a carne, invólucro do verdadeiro homem, do ser de luz recoberto, mas também evoca o sangue, líquen formado na medula dos ossos, sangue cuja cor avermelhada remete-nos à cor tradicional em alguns ritos maçônicos.
Encarnado cujo significado é o vermelho que por sua vez simboliza vontade, desejo.
Vermelho que nos lembra o sangue, sangue que é a força motriz da vida física e da vida espiritual, sangue que traz o selo, a marca divina que nos foi dada a partir do sopro de Deus quando ele formou e criou o Adão primevo e original. ( em hebraico Adão lê-se A (alef =Sopro ) + Dam (dalet+mem = sangue).
Um templo autêntico não pode consistir de um conhecimento impessoal, precisa consistir de uma realidade encarnada, da realidade do homem que está vivendo, ele é fruto de uma experiência pessoal ligada à experiência do viver.
O templo interior é a experiência da Vida e à medida que esse templo é erguido, o homem é regenerado, sobe à presença de Deus, e a Jerusalém Celestial desce à terra.
Percebe – se que o templo interior coexiste com os templos formados, exteriores, e nele o Acima e o Abaixo se juntam indissoluvelmente, os complementares fundamentais (os quatro elementos, os quatro animais bíblicos) se unem, o espaço se transforma em tempo e o tempo em espaço.
Etimologicamente a palavra Templum que desenvolvendo-se do significado de um espaço determinado e dividido de uma certa maneira, vem a desembocar no significado de tempus (tempo) ao relacionar-se uma determinada região do céu (oriente, por exemplo) com uma determinada hora do dia (a manhã, por exemplo).
Tal dualidade se estende aos ciclos dia-noite, inverno-verão, ao movimento dos astros e a ordem sincrônica dos ciclos na terra, e que muito bem estão representados nos templos maçônicos através do zodíaco, das colunas Sol e Lua, das figuras dos 1º. e 2º. Vigilantes (meio-dia e meia-noite)
Por falar em dualidade, é evidente a relação do templo com o aspecto feminino da criação, sendo o templo o recipiente, o lugar no qual se abriga o que desce do céu, a terra fecunda que recebe as águas do macho que é o céu, o que acolhe o conteúdo/Deus, tornando-se o templo obviamente o complemento de Deus que Ele se utiliza para se fixar e criar.
Poder-se-ia dizer que a criação é a formação de dois reinos, o do céu e da terra, a separação do Criador e das criaturas e o templo seria assim como o meio que volta a uni-los.
Verificando ainda o que dizem as escrituras tradicionais aprendemos sobre o mistério da criação e o mistério da redenção e que são estes os mistérios contidos no templo, uma vez que o templo vive dentro da dialética do movimento do mundo, de sua criação e destruição.
E esse mistério e essa dialética se mostra no exemplo do templo simbólico por natureza que é o Templo de Salomão, construído repleto de Inteligência e Sabedoria, mais tarde destruído e seu povo exilado e submergido em “terras estrangeiras” surgindo nesse exílio a promessa de salvação e de retorno ao lugar sagrado em que o Céu se une à terra e onde o templo será reconstruído.
Vemos aí os três aspectos do templo que também são os da humanidade: o templo primeiro arquetípico (Templo de Salomão e/ou Adam Kadmon), o templo destruído (A Queda, adão “peca” e seu corpo de Luz é revestido de uma pele e ele tal qual Israel vive no exílio), e o templo reconstruído ( A Jerusalém Celestial – o retorno do homem ao Paraíso – o Adão reconstruído que reencontra seu corpo glorioso, o Homem-Filho de Deus).
Conhecemos ainda a representação do Templo interior desde a antiguidade passando pela Idade Média e Renascença, como sendo a de uma construção que se eleva no alto da escada que une o Céu e a Terra, em cujo primeiro degrau um homem, arquétipo representante da unidade de todos os diversos, é o significando, significado e significante da união entre o céu e a terra, o qual com um pé apoiado no primeiro degrau, busca ascender os sete degraus até alcançar o raio de sol, manifestação de Deus, que ilumina o umbral do templo da Sabedoria do Senhor em que se terá acesso à Ciência de Deus, simbologia essa inscrita nos painéis de Aprendiz e Companheiro.
O Templo é por assim dizer uma conceituação trina que aponta para três pontos, quais sejam : - 1-uma separação, o corte, um talhar; 2- um lugar habitado por Deus ; 3- e esse mesmo lugar é lugar de contemplação e de reunião com Deus.
Vale observar aqui que o templo interior é uma coisa viva, e que não podemos procurá - lo arqueologicamente como um ponto ou um lugar perdido no tempo ou no espaço, mas sim como sendo algo adormecido e oculto que não sabemos “ver” uma vez que enxergamos apenas com os olhos externos e lidamos tão somente com quantidades e com estruturas formais e temporais.
Se nos for possível fazer cair a venda e “ver” a Luz com o olho interior, perceberemos o templo interior e nele uma fortaleza cujas muralhas nos livrariam das forças do mal, forças que nos tentam continuamente a fim de fixarem em nós a dissolução, a desordem e a desunião.
Experimentamos então ver nessa empreitada o templo ser erigido sobre uma fundação de paz, termo que é tradução de Jerusalém, e que o templo será constructo quando “Israel” conseguir paz à sua volta.
Nessa possibilidade, percebemos que o templo está erguido dentro do circulo dos que procuram a Sabedoria, a Temperança, a Vida, o Bem, aonde vingam os que buscam SOPHIA, no meio dos que buscam aproximar-se do reino dos arquétipos eternos saindo deste mundo perdido.
A propósito da temperança, templo nos dá a entender um edifício esplendido e ornamentado, mas também se infere da palavra templo a palavra temperatura, temperança, e temperança é uma mistura equilibrada, harmônica, o desejo de ficar entre duas extremidades, o multiplicar o menor e reduzir o maior, e toda temperança acontece no interior, no segredo do templo.
Como foi dito, o templo promove a união entre o céu e a terra, e o que é esta união senão o tempero e temperança feita à temperatura do calor do fogo de Deus, a Aliança entre Deus e os homens, o pacto que é força propulsora a nos conduzir ao templo interior onde está contido o Nome de Deus, este nome, esta palavra, este verbo que ao ser conhecido nos liga à perpetua criação de Deus, cujo som gera a ordem perfeita, este nome que os iniciados transmitiam em segredo, sussurrado ao ouvido, como ainda hoje sói acontecer nas lojas maçônicas em rememoração à essa antiga prática.
Retornando um pouco até o ponto em que se diz que a pedra deve ser talhada, nos ensina o Sefer há-Zohar que a pedra vista pelo profeta Ezequiel junto ao rio Kebar, é a pedra fundamental sobre a qual foi construído o Templo, analogia que nos leva até as pedras bruta, cúbica e polida sobre as quais a maçonaria trabalha para iniciar a construção do templo interior do homem renascido, do homem advindo das trevas e da câmara de reflexão e que caminhou para o oriente em busca da Luz, e que no estágio de pedra polida torna-se a pedra posta no centro do templo interior do universo representativo da Aliança de Deus com os homens, o centro que está no templo interior do universo, mas que antes se acha no centro do templo interior do homem reconstruído que é coração e centro do universo.
A Casa do Pai é o templo de nossa origem e nosso princípio e a Ela chegaremos um dia.
Francisco Vilemar F. Costa .’. – M.•. M.•. – GOB/Ce.

Nenhum comentário: