sábado, 1 de agosto de 2009

DA EDUCAÇÃO DOS EDUCANDOS E DA ESCOLA

A escola é que sempre nos dirá o que somos e o que seremos.
Ela é o índice da formação dos povos; por ela se tem a medida das suas inquietudes, dos seus projetos, das suas conquistas e dos seus ideais.
Cecília Meireles na crônica “Nossas Escolas” publicada no Diário de Noticias em 16.11.1932


Considero que a educação não se prenda apenas aos valores “educacionais” - Escola, Professor, Ensino, Aluno - , mas que parte também holisticamente da família, do meio social, da religião, religiosidade e espiritualidade no meio circundante da criança e adolescente, da interação deles com os amigos do bairro, e ora, com a relação/acesso aos meios digitais, notadamente a Internet.

Considero ultrapassada e danosa a forma de ensino linear, focado em conteúdos específicos e exercícios repetitivos de memorização, apoiado em materiais escritos e didaticamente engessados a um modelo de crescente dificuldade aliado a um modelo de aprendizagem individual e individualista regido por punições e recompensas oriundos de um modelo que foi repetido milhares de vezes durante a formação dos próprios professores e que não mais se adequa ao estilo dessa nova geração de jovens pós revolução digital.

Aponto que há uma ditadura escolar, agravada nas horas pré e pós-aulas extras-muros e nos intervalos intra-muros dos colégios, pelos fiscais “policiais” que a pretexto de proteger e guardar os alunos, dentro e fora das escolas, fazem mesmo é o cerceamento de liberdade de jovens por natureza inquietos, quase que meio anárquicos.

Infelizmente a escola ainda tenta manter vivo aquele modelo antigo e capengante, alheia ao fato de que o mundo onde vivemos exige um novo formato de aprendizagem e, consequentemente, a capacidade de “aprender a aprender”.

Esses moldes elencados acima, têm uma relação quase nula com o modelo de aprendizagem ao qual nossos alunos e os jovens em geral estão a buscar e desejar.

Assim, aponto como sugestão de formato de ensino/aprendizagem contemporâneo, que :

1. não há linearidade estritamente necessária em uma sequência de aprendizagem; você pode chegar ao mesmo lugar partindo de diferentes pontos e traçando diferentes rumos, ainda que por alguns caminhos a jornada seja mais longa e pedregosa;
2. a aprendizagem é focada em objetivos imediatos e sucessivos e nem sempre o aprendiz tem algum objetivo longínquo em mente; os objetivos mudam com a própria dinâmica da aprendizagem;
3. não há mais a necessidade de um “professor transmissor de conteúdos”; quando muito se faz necessário um “orientador de rumos”; o papel do professor não é restrito, mas antes amplificado, cabendo a ele a difícil tarefa de ensinar o aluno a fazer boas escolhas ao invés de apenas fornecer as melhores respostas;
4. a aprendizagem quase sempre se dá pela interação com outros aprendizes e, preferencialmente, ocorre em grupos e não individualmente; o conhecimento é construído coletivamente e apropriado de forma individual;
5. o erro é um parâmetro de acerto de rumo, não é visto como uma punição ou um fracasso na aprendizagem; errar passa a ser parte do próprio processo de aprendizagem, passa a ser um “método”, dentre outros, de se chegar aos acertos.

A escola necessita aprender que não se pode ensinar a pensar de uma forma nova usando-se métodos e modelos antigos como base para essa aprendizagem.

Os educadores necessitam convencer a turma de que, estudar e aprender, é importante para a formação deles enquanto cidadãos, agentes e membros da sociedade; em segundo lugar, convencê-los a ir além do raciocínio lógico estimulado pelas ciências exatas; e concomitantemente devem orientar aos educandos que não basta apenas cumprir as exigências curriculares acadêmicas e passar de ano.
Dessa forma penso que devemos pontuar que a educação escolar não deva focar o Mercado, e/ou o mercado de trabalho e deverá sim proporcionar ao jovem uma maneira de enxergar um significado maior na vida.
Ou seja, a educação não deve dirigir-se apenas à escola, ao aluno, ao professor, porque ela atua sobre a família, a sociedade, o povo e se enquadra com os nobres desígnios da humanidade.
Por essa forma. creio que a escola deva formar criaturas capazes de vencer os obstáculos cotidianos da vida pelo poder de se transformarem e se adaptarem às exigências do ambiente e de se renovarem após cada experiência vivida para a aventura de uma experiência seguinte.
O que se deseja é uma escola que ofereça, no ambiente escolar, a cada um o máximo desenvolvimento das suas aptidões, para que os alunos se encontrem a si mesmos, e conquistem, na proporção de sua personalidade e capacidade, os elementos de que necessitem para a formação de suas vidas.
A escola deve ser isso mesmo UM AMBIENTE.

Avalio ainda que o professor precisa ficar livre das exigências burocráticas para cuidar melhor do aspecto pedagógico do ensino, que na realidade escolar o educador não se veja “pressionado” pelas exigências burocráticas e nem se sinta, em contrapartida da “pressão”, desamparado pelos órgãos do sistema no que tange à supervisão pedagógica, e que possa obter o tempo suficiente e necessário para as condições de poder cuidar dos assuntos que dizem respeito diretamente ao processo ensino-aprendizagem.

De forma prática e objetivamente, penso que às escolas restará:
1- realizar projetos de interesse social para apoiar a educação individual e a autoformação, assim como voltados para a educação formal em todos os níveis visando assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa;
2 - Objetivar meios de estimular a imaginação e criatividade das crianças e dos jovens;
3 - Promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações cientificas.
4 - Possibilitar o acesso a todas as formas de expressão cultural das artes do espetáculo;
5 - Fomentar o dialogo intercultural e a diversidade cultural;
6 - Apoiar a tradicao oral;
7 - Assegurar o acesso dos alunos a todos os tipos de informação da comunidade local;
8 - Proporcionar informação adequada para associações de pais e de estudantes (grêmios);
9 - Facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a informática;
10 – Focar na formação de cidadãos conscientes e críticos, pessoas solidárias e comunitárias, colaboradores na formação da sociedade;

Considero também vital e urgente, enfrentar as dificuldades dos professores para despertarem o interesse dos alunos pela aula e pela sala de aula e também o abandono da trincheira, autoridade-subalterno, mestre-discípulo, sábio-aprendiz.

Uma outra questão é, nessa era digital, a árdua tarefa dos educadores em instilar nos alunos o gosto e a prática pela leitura, pois nesses tempos de Internet, os alunos lêem poucos livros, jornais ou revistas, apesar de escreverem bastante nos sites de relacionamentos, bate-papos e blogs.
Sabe-se que há vários agravantes que levam os alunos à não gostarem de ler como, por exemplo, a falta de incentivo na infância, apesar de também sabermos que essa falha familiar de incentivo e cultivo à leitura é algo complicado, pois muitos pais não possuem o hábito de ler e, na maioria das vezes, nem o sabem.

Sendo assim, resta a escola, que deverá criar metodologias para educar os alunos para a prática da leitura, através de leituras dramatizadas, áudio leituras, rodas de leituras, poemas musicados, rodas de declamações, criação de cordéis, conte um conto, etc.
Caberá ao professor promover essa reviravolta, essa revolução, suprindo a falha da família, dos pais, ao não incentivarem e criarem um hábito prazeroso da leitura na infância.

Mas como incentivar as novas gerações a amarem a leitura? Esse é o desafio a enfrentar, nos dias de hoje, quando a televisão, se constitui num instrumento de emburrecimento precoce de nossa infância, e adolescência, impondo sua programação inculta, estimulante do consumo ilimitado e perdulário, falaciosa e tendenciosa, supérflua, inócua e bizarra.

De antemão penso que inicialmente deverá se criar um projeto de leitura a partir dos professores, porque um professor não pode incentivar um aluno a ler se ele mesmo não o faz;
Em seguida este projeto deverá atingir as famílias para que elas orientem as crianças e incentivem-nas a gostar de ler desde bebe, ouvindo historias;
Por fim, esse projeto colocaria uma quota de livros obrigatória para as escolas, isto é, os alunos teriam que ler tantos livros por ano, ou por mês.

Outros pontos complementares as escolas deverão adotar, tais como: - Promoção de encontros das famílias dos alunos para atividades dentro das escolas;
- Produção, apresentação e divulgação de ações e produtos culturais
- Criação classes especiais de recuperação, para zerar o número de alunos com baixo rendimento escolar;
- Elaboração de materiais de orientação sócio-familiar, curricular e cultural para professores, pais e alunos;
- Convênios com instituições de ensino superior de todas as áreas visando um intercâmbio pedagógico e suporte de conhecimentos.

Além disso, o projeto deve alocar um auxiliar de ensino (estudante de Pedagogia ou Letras), para ajudar o professor em sala de aula.

Há um ponto que hoje, educadores e escola, pecam por excesso menos que por omissão: A disciplina.
Disciplina não quer dizer uma submissão passiva às coisas e fatos, uma subordinação à vontade alheia, ou à força de acontecimentos e regras.
Disciplina quer dizer uma colaboração consciente na harmonia coletiva, uma ordem ativa, uma compreensão dos assuntos, fatos e acontecimentos.
Disciplina que dizer um sentimento de responsabilidade compartilhada e a voluntária aceitação da tarefa de cumprir um bem estar comum, seguido de perto pelo bem estar individual, do cumprimento de preceitos coletivos com sacrifico (sagrado oficio) pessoal.


Por último, penso que deverá haver intercâmbios pedagógicos entre as escolas, um fluxo de mão dupla das experiências e conhecimentos das escolas e educadores.

Quanto ao fator família, ressalto aqui uma questão.

Na qualidade de pai-mãe, como abordar o problema de como ajudar o filho a compreender toda a natureza e toda a estrutura de seu espírito, de seus desejos, de seus medos, - todo o impulso da vida?
Na qualidade de pais, estamos prontos a formar uma nova geração de pessoas – pois é disso que se trata – totalmente diferente das precedentes, com espíritos e corações de todo diferentes?
Estamos prontos para o dialogo e em alguns pontos aprender com eles?
Se você é pai, renunciará, por amor ao seu filho, à bebida, ao fumo, à marijuana, à droga, à corrupção, à “lei de Gerson” (e outros erros e vícios) e se aplicará a fazer tanto de você quanto do seu filho bons seres humanos?
Como pais, desejamos realmente uma cultura diferente, um ser humano diferente, dotado de um espírito esclarecido?
Quanto aos jovens e crianças oriundos de famílias desequilibradas e desestruturadas, que nem sempre são pobres, creio que a escola poderá se prestar a mais esse papel aglutinador, através da ocupação escolar-educacional com atividades curriculares e não curriculares em tempo integral, o que possibilitará aos jovens uma saída temporária e desejável do ambiente desestruturado, e simultaneamente, oferecer ao jovem um aprendizado e uma base de apoio através de grupos de auto-ajuda, e de terapias comunitárias, somadas a orientações psicológicas e de assistência social para fortalecê-lo quando ele voltar ao lar no fim do dia.
Somado a esse esforço, poderá a escola buscar integrar o pai ou a mãe, ou ambos, das famílias abaladas, através das atividades conjuntas nos encontros das famílias dos alunos dentro das escolas e através dos materiais de orientação sócio-familiar e cultural, bem como poderá incluir a informação e formação dos pais/mães, valendo-se também da ajuda gratuita e voluntária de grupos de auto-ajuda existentes com variadas especificidades relacionados a drogas, neuroses, co-dependências e afins, aliadas com um apoio psico-social de seu quadro de profissionais.
Vilemar Costa

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