quarta-feira, 17 de novembro de 2010

UM OLHAR SOBRE O HOMEM E O MUNDO

PENSAR O MUNDO E O HOMEM
“O falso quando é homogêneo pode gerar o “verdadeiro”; o falso quando reunido numa certa ordem confere a si próprio certa realidade “ – Robert Bresson - Cineasta Francês.
As coisas estão submetidas a um conjunto de circunstancias da ordem dos fatos, do real, da facticidade, cuja absoluta eventualidade circunstancial dissolve as verdades e as fundamentações para a existência humana, e sua existência é absurda.
Há uma eventualidade circunstancial absoluta das coisas.
O mundo toma-se de absurdos.
O absurdo do mundo é simplesmente uma função de sua bruta imprevisibilidade e que nos escapa ao controle,é aquilo que ocorre de maneira eventual, circunstancial, sem necessidade, e que poderia ter acontecido de maneira diferente ou simplesmente não ter se efetuado, e é através dessa função de contingência bruta que se produz aversão, repulsa, enjôo, o que Heidegger chamou de “o tédio”, uma sensação de desgosto, de vazio, de aborrecimento e cansaço.
Ante esse espanto é necessário que o individuo reconheça sua liberdade diante disso.
O individuo tem de escolher seu próprio mundo, assim sugere Sartre.
Sustenta ainda Sartre que o homem é livre como individuo perante o mundo conturbado e caótico e deve estar para além dos que nomeiam para classificar e enquadrar em uma camisa de força o que não está ao seu alcance.
Sabe-se que a escolha da liberdade implica a não aceitação do mundo como ele se apresenta; isso é um dos pilares existenciais.
Vale acrescentar ainda ao contexto que há de se considerar também a incerteza da relação pacifica entre seres humanos diferentes, e a permanência da vida e do mundo breves como um suspiro que se alterna. Observando ainda que não mais se considera as relações orgânicas e privilegiam-se as relações mecânicas.
Outra questão a trazer para o entendimento é a tal autoridade. Não se consegue perceber que autoridade não quer dizer poder. Autoridade será sempre em qualquer instância um respeito moral que temos pelas qualidades, saberes, experiências e competências de alguém.
Ainda é preciso pontuar que a beleza e o horror, o sublime e a barbárie, a angústia e a inquietude, oscilam renitentes e imediatas neste mundo dominado pelo absurdo e pela insanidade humana sem limites.
Assim, o que está em jogo na urgência que hoje percorre o tempo e o espaço que remanesce, para não consubstanciar a tragédia em curso, é refletir a possibilidade de sonhar com o desaguar na busca do divino que em nós resta, e a utopia de buscar o caminho da via da epifania reveladora, isso que em ultima instância é a própria vida.
Necessário se faz aqui abrir um parêntese :
Cautela 1 : Que essa busca do divino que em nós remanesce e dessa via da epifania reveladora, não aliene o corpo e nem nos afaste do próximo na base do cada um por si só, em seu caminho exclusivo, em seu carma, em sua dor que não me importa e que não me afeta pois não é minha. Que essas buscas não excluam o viver comunitário terreno, a vida e o mundo comum corpóreo-material dessa grande família humana, nessa imensa casa chamada terra, ou que nos leve assim ao desprezo aos quatro elementos formadores comuns de todos nós.
Cautela 2 : Nem pensar que o “amar ao próximo como a ti mesmo” seja passaporte visado para a espiritualidade, ou franquia livre para o êxtase de uma espiritualização compulsória; mas sempre será sim e antes que tudo, a simples experiência de uma plena huma(u)nidade; apenas nos transformará, provavelmente, em humanos seguindo e segundo os objetivos e desejo original do divino que nos fez, criou e formou.
Fecha-se o parêntese.
Citei acima a tragédia, e, na dúvida, inquiro se vivemos sob o jugo do destino imutável da tragédia ou se vivemos um drama que traz a possibilidade de mudanças.
Será o sentido da vida, unicamente cumprir as vãs e falsas promessas de felicidade da sociedade do espetáculo imersa e emergente desse sistema capitalista em que tudo é objeto, mesmo as pessoas?
Até onde, a continuarmos sonâmbulos automatizados, haverá vida e mundo nessa humanidade de superficialidades e aparências?
Aonde se chega nesse faz-de-conta solidário, nesse faz-de-conta fraterno, nesse faz-de-conta de igualdade e de liberdade, nesse vazio de essência humana e nessa humanidade repleta do dia-bólico, que separa, que exclui, que discrimina?
Onde queremos chegar através dos juízos de valor e desejos de felicidades vigentes em que se encontram argumentos de toda ordem para sustentarem as ilusões que nos proporciona a “matrix” econômica dos sistemas sócio-políticos?
Como elaborar uma ética, uma moral, uma regra jurídico-normativa para uma raça de demônios, de modo a tornar viável a sua vida coletiva?
Terá razão plena a epigrafe de Robert Bresson, que encabeça esses rabiscos, de que o falso já se torna verdadeiro e real?
Antecipo aos que chegaram até aqui e possam enxergar pontos de um viés totalitário que não advogo homogeneidades ou concordâncias unânimes, posto que o contraditório, a diferença, a alteridade que soma a tese com a antítese e perfaz o caminho da síntese visando a emergência, é o caminho mais saudável que se possa trilhar e construir no encontro das respostas e soluções.
As diferenças é que articulam e reúnem, a unanimidade concordante majoritária tende a dissociar e excluir.
Vamos de poesia.
O pó da vida
Mesclado entre
Noite e cinzas
Noite e sombras
Move se entre claros fugazes
Entre trevas renitentes instantâneas
Suspira a melancolia no palco dessa vida. (Vilemar F. Costa)

E por aqui mais dúvidas :
Qual o papel e qual a função do ser e do estar humano nesse ato teatral que ora representamos?
A contingência e a facticidade exercem em definitivo o domínio colonial e a imposição imperial sobre os humanos? Haverá saída emancipatória?
De certo apenas muitas perguntas...
Ousando vislumbrar uma dialética posta de forma simples: o homem deve trazer a humanidade de volta ao homem - se o homem como espécie quiser sobreviver para obter a real e possível libertação e emancipação. Nós podemos até ousar dizer que estamos fazendo nosso melhor, mas como Winston Churchill disse: "Dizer que está fazendo o seu melhor não tem utilidade alguma. Nós devemos ter êxito fazendo o que é necessário."
E quando se está no escuro, e se quer luz, não apenas se pensa sobre isso mas busca- se acender uma vela e a erguemos, à altura do peito protegendo a chama com nosso tronco, para dissipar a escuridão. Não a colocamos à altura dos pés ou à altura da cabeça, se a queremos utilizar como luminária para tornar claro um caminho à frente.
“Nada é o que parece” – O Caibalion Hermético
“Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?
Ai, quem nos poderia valer?
... e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo
neste mundo definido” – Rainer Maria Rilke in “Elegias de Duíno”
Vilemar F. Costa – 15.11.2010

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