terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O ESPANTO IMPERA (*)
“...As faltas do homem em relação a Deus são perdoadas pelo Dia do Perdão; as faltas do homem em relação ao outro não lhe são perdoadas pelo Dia do Perdão”... Mischná
O que há no humano que afastou a Luz refugiando-se na sombra da arbitrariedade e desrespeito ao ser e ao semelhante, esbarrando no extremo oposto da Justiça com Igualdade e da Verdade com Liberdade?
Em qual pórtico escondeu-se a Verdade?
Em qual percurso perdido entre os signos a Justiça?
Que sentimentos, vontades e paixões rompem marcha nos ocidentais, adeptos de doutrinas católicas, protestantes, evangélicas e espíritas, os quais quedam-se surdos e de coração duro aos ditames de suas próprias doutrinas as quais derivam do Ideal Cristão enleado pelo amor grego (Eros e Philia) e encimado pelo derradeiro Amor, o Amor Ágape Crístico, que se revela através do acolhimento, da alteridade e do Perdão?
Entendendo haverem os gregos iniciado a doutrina do Amor, através do Eros platônico e da Philia aristotélica imbricados com o amor romântico dos poetas filósofos de então, arriscamos compreender que o Cristo vem oferecer o Amor Ágape selado com o quarto elemento que é o Perdão com acolhimento, compaixão e alteridade, promovendo-se então a síntese que emerge para a Quintessência, o que possibilita começar a construção do Caminho para o Templo de onde renascerá das cinzas profanas a fênix humana rumo à transmutação alquímica que nos possibilitará, sob a guia angélica, galgar a Escada de Jacó; Onde está o Amor? Ou, onde estão os Amores?
Ressalte-se que Amor Ágape Crístico não é um sentimento mas um dever que filosoficamente atrai ao campo da ética, da moral e da alteridade com o olhar no que é o outro e não em um segundo eu.
A humanidade perdeu esse caminho de construção e transmutação, ou optou por um desvio que a leva ao ego automatizado?
E o que dizer da perda dos outros caminhos: Liberdade, Igualdade, Fraternidade (originariamente Solidariedade), Sabedoria e Beleza? E o que dizer frente à ruptura da constatação de Freud em seus estudos de que no amor interessa a justiça e a verdade? Frente tais circunstâncias terá razão André Gide ao dizer que “com belos sentimentos e belas paixões faz-se hoje o mal e torna-se a Razão má”?
Ainda segundo Freud, leitor de Schopenhauer, o Amor em suas vertentes Philia e Ágape é uma super exigência e uma afronta ao ego narcísico e que essas vertentes ultrapassam as possibilidades de aceitação tolerante e consciente e foge ao controle das emoções da psique egóica, causando então duplo sofrimento, dupla frustração, e atroz sentimento de culpa, instigando a mágoa e produzindo as conseqüentes neuroses, as quais carregarão nesse processo totalitário de ego e de individuo narcísico um sentimento de estar sendo “passado para trás”, tanto no aspecto racional, intelectivo e psíquico quanto no social, de onde poderá vingar a retaliação e a perseguição.
Voltando aos Amores.
Eros é o principio agregador, a fusão. O amor Eros é um amor estético, um amor idealizado, um amor que busca o belo e o sensorialmente agradável.
Philia é a união, a comunhão, o amor de amizade, a fraterna integração entre indivíduos e o que faz a formação de grupos coesos num trabalho comum sem que seus componentes percam suas subjetividades e individualidades. O amor Philia requer, em alguma instância do caminho, a reciprocidade; lembrando que reciprocidade não é retribuição.
O amor Ágape aponta para uma ética positiva da alteridade, do outro, de amar o outro assim mesmo como ele é, não importando como é. O amor Ágape é Igualdade.
Contudo o amor Ágape é escândalo.
O Amor Ágape é um escândalo porque é um dever: ele manda “amar a ao teu próximo”. E assim sendo é um escândalo porque beira o limite humano e só está acessível aos inquietos buscadores que anelam ver a Luz e se disponibilizam Nela a uma constante renovação. Luz que se revela por necessidade de estar novamente velada, cuidada, ou seja, não necessita ser demonstrada mas sim estar de novo sob vigília, zelo, cuidado. Renovação porque a partir da auto-iniciação tudo se torna novo de novo num constante e terno devir.
O Amor Ágape é um escândalo porque mostra a contradição: Será o cristão, cristão? Será o espírita, espírita? Será o Iniciado, Iniciado? Será o místico, místico? Será o filosofo, filosofo? Será o adepto, adepto? Será o crente, crente?
Achar que é automaticamente é um auto-engano. Não basta dizer que é; é preciso ser efetivamente, é preciso de fato viver a doutrina abraçada e por ela se deixar envolver, é preciso assumir e entrar na dinâmica da revelação e da novidade contínua percebida para não cair numa espécie de coletividade indiferente e na negligência de um hábito rotineiro.
No caso específico do auto iniciado, há ainda um compromisso unilateral com o humano, de amparo e amor, que exige cumprimento constante, incondicional, irrestrito e sem pôr-se à prova, porque só se pode condicionar e pôr à prova aquilo que pode alterar-se em seu conteúdo básico a ponto de converter-se em seu contrário.
Como exemplo do que não se põe à prova: o amor, que não pode alterar-se em ódio, o irmão, que não pode tornar-se o estranho, o amigo que não pode tornar-se inimigo.
Vale observar o que nos aponta Soren Kierkegaard ao afirmar que a verdade, a justiça, a abnegação e o desprendimento desinteressado compõem o paradigma do Amor Ágape Crístico, paradigma que também carrega o Amor da doutrina de Buda.
Lembra ainda Kierkegaard que em qualquer relação entre os homens sempre há algum tipo de esperança, mas que nunca poderá haver qualquer tipo de expectativa, de espera, de retribuição de um para com o outro para que não se altere a intensidade do vínculo relacional.
Todo o assunto nos conduz aqui à seguinte pergunta : Que preceitos éticos, morais, relativistas e emotivistas conduziram a humanidade ao desvio do amor grego (Eros e Philia) e do amor Cristão (Ágape) ? Que tendências consequencialistas e utilitaristas se utilizam ao longo da história para validar decisões exclusivas e separatistas e/ou distinções unilaterais que desrespeitam direitos da alteridade e do contraditório, o respeito e acolhimento ao diferente e que alienam o dialogo? Em que escaninho está guardado o humanismo e o espírito anárquico de unidade democrática?
Em que desníveis conscientes e em que desvãos inconscientes ficam esquecidos a solidariedade, a cooperação, a fraternidade, o respeito às oportunidades do outro, a liberdade e o direito a defesa e direito de resposta?
Mesmo assim, ancorado na esperança e na utopia e seguindo a máxima da juventude idealista que buscava ser realista fazendo o impossível, ainda creio que devam vencer os mais humanos, os que são capazes de compaixão, os que respeitam os direitos à liberdade, à alteridade, ao contraditório, ao diferente e ao dialogo; os amantes e os amigos;
Creio que venham a enfraquecer-se até a exaustão os que acham que o mais fraco deve submeter-se ao mais forte e que o convívio na circular horizontal deva submeter-se a hierarquia verticalizada;
Penso que se tornarão inócuos os que determinam que aos fracos cabe a submissão, os que impõem uma diferenciação vertical autoritária, os que exigem que se deva dobrar a espinha aos titulares de cátedras e de maestrias, e os consideram que se tenha o dever de curvar-se em salamaleques aos ungidos ou a dignidades honorificas, ou que se obrigue o cortejar aos que temporariamente estão no “andar de cima” da pirâmide;
Não mais se condenará aos que ousam desdenhar da meritocracia dissimulada e manipulada a pena máxima;
Creio que hão de se acalmar por si e de moto próprio os que desejam sobrepujar e dominar os demais os subjugando ao seu modo único de pensar e seu modo de único de ver o mundo;
Na esperança aguardo que serão vencidas as paixões dos que se consideram mais fortes e mais aptos e mais persuasivos pelo fato de haverem sido “escolhidos” dirigentes entre “os melhores” e portanto serem “supermelhores”.
Enfim, movido pela esperança, pela utopia e pela possibilidade de alcançar a realidade fazendo o impossível, tenho como certo que todos terão a chance de encontrar a Verdade e a Justiça, ainda que provisoriamente, dado a impermanência que ronda a vida.
É isso que se traduz por “transformar o mundo”, segundo a exigência de Karl Marx.
É disso que trata o unir no Mar de Bronze o Fogo e a Água.
Isso se trata de convergir o caminho do pilar da Justiça-Rigor e o pilar da Graça-Misericórdia em direção à Beleza-Fundamento do pilar central que perfaz o caminho da justiça distributiva e equilibradora que emana harmonia, ligada indissoluvelmente à Paz.
Isso trata de buscar a síntese entre a Justiça-Força racional e a Misericórdia-Sabedoria sensata, pela síntese da Beleza no Fundamento do Reino, a Schekinah.
Vilemar F. Costa .’.
(*) O espanto carrega a filosofia em seu interior. O espanto é a causa do filosofar. O espanto é Páthos e enquanto Páthos é Arké. O espanto é a dis-posição em manter-se em suspenso,em vigília, aberto, desarmado, atraído e fascinado pelo abrir-se e pelo manter-se em recepção ao que se abre.
- Páthos = deixar-se levar por; tolerar, suportar; deixar-se con-vocar por; disposição a.
- Arké = aquilo de onde algo surge e pelo qual esse “onde” não é deixado para trás mas que “o” segue constantemente determinando sua marcha.
BIBLIOGRAFIA :
Platão – Teeteto
Martin Heidegger – Que é isto a filosofia
Soren Kieerkegaard – As Obras do Amor -
Sigmund Freud – O mal estar na civilização – Edit. Civilização Brasileira
José Gurgel Lourenço – As três Ilusões – Univers. São Judas Tadeu – São Paulo/SP
Emmanuel Levinas – Quatro Leituras Talmudicas
Jean Jacques Rousseau – Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. In: Rousseau ( Obras Escolhidas) Coleção Os Pensadores Abril Cultural
Gilmar Zampieri – Eros, Philia e Ágape em Kierkegaard – Centro universitário La Salle – Canoas/RS da PUC- RS.

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