segunda-feira, 1 de agosto de 2011

PALAVRAS


“Todos tem o direito de serem acolhidos
o que corresponde ao dever de acolher os outros.
Não deve haver, como há, extra-comunitários.
... O experimento homem não anula as diferenças culturais
com as quais devemos aprender a conviver, a trocar,
a nos complementar e a nos enriquecer.
Nem todos os valores e costumes são convergentes e de fácil aceitação. 
 Dai impõe-se a tolerância ativa de reconhecer o direito do outro
de  existir como diferente  e   garantir-lhe  sua plena expressão.” 
Leonardo Boff 

Movendo-me  em profunda inquietação  e na busca de uma imponderável claridade,  desprotegido, desconfiado, lanço-me em palavras, como um bárbaro, nada tendo a ensinar, mas tudo a apreender,  aberto ao mundo, curioso  e perplexo.
Aviso que nada trago de con-versão, mas de in-versão, quicas,  em ultimo caso,  de imersão.
É  no mundo das idéias, o mundo que muda o mundo das formas, onde buscarei o impulso do lançar-me.
Ainda que perceba  que  é no mundo das idéias que habita o filosofar, sei que é lá também  que se dá a origem da resistência das pessoas  ao  pensar, ao ver e ao ler, e que as faz,  abstrata ou realmente,  rejeitar o dialogo  com a razão, com as idéias, com a dialética e com o contraditório, pois estes as assustam.
Penso que  é aterrorizante para muitos  o movimento em que as idéias se embalam, pois é aí onde surge o novo, o súbito e o desconhecido,  e estes dão medo.
É a mobilidade no mundo  das idéias, a causa do sobressalto dos  cabisbaixos e  silentes autômatos, dos isentos de dúvidas,  dos senhores de verdades não paridas por eles próprios,  donos de uma opinião formada sobre tudo,  e que por isso permanecem estáticos,  e por isso consideram mudanças, como bombas perigosas,  e que,  em suas inconsciências fazem medrar  paranóias e fobias, e outros abalos  em seus estados mentais e psíquicos cristalizados.
Compreensível  a resistência  e rejeição que são feitas ante o natural impulso do  mover-se nas idéias, porquanto as barreiras  erguidas na abstração real das  mentes concretas, alicerçam – se  na acomodação, erguem-se  na submissão  e revestem-se em escolhas induzidas que faz crer,  haver vida inteligente na zona de conforto e refúgio seguro no castelo que erguem  apenas  para si, na qual a trans – Formação (forma em ação; o movimento das idéias) originária no mundo das idéias, é cada vez mais temida,  por tornar o mundo  “externo” dolorido e não “colorido” como ele se lhes apresenta  em seu inconsciente refúgio,  em sua zona de conforto  e em seu consolo.
Pensar não assegura um comportamento perfeito, quando muito razoavelmente tolerável, porque é um mar de contradições essencialmente móvel, a se agitar através de causas, necessidades, razões, imperativos.  Refletir, raciocinar, pensar é um espetáculo instável e cada ator do espetáculo é diferente de si mesmo e diferente a cada instante conforme o lado de onde se olha.
Por isso a maioria foge da árdua luta que é o confronto com o pensar e o refletir, e nessa fuga nasce a fobia,  e dela o preconceito  e o egoísmo,  que tornam o ser  infenso a mudanças, armando-lhe uma defesa contra o debate, lançando  desqualificações,  buscando anular o diferente, o estranho, passando  a enxergar em tudo e em todos o mal e o mau, alardeando que à sua frente está um inimigo que deve ser “isolado” , no mínimo esquecido,  que  o  “diferente”,  “o estranho” deve ser posto  no  outro lado da cerca.
Tomados  pelo medo de sair da “zona de conforto”  de suas opiniões cristalizadas, e do consolo de suas opiniões formadas sobre tudo, esses “seres do bem”, indivíduos “sadios”,  “normais”, “os bons e tradicionais zelosos do status quo”,  passam a propalar que os contrários e os diferentes  pregam o caos social  e o engessamento da sociedade,  ou que as idéias destes “alienígenas  amorais”  visam a dissolução social, e repetem à exaustão que aqueles que se movem nas idéias e pelo pensar livre estão cegos e doentes  (que pena não gostarem do mundo das idéias para que possam apreender o “Ensaio sobre a Cegueira” do Saramago),  e que o propósito do agitar, do debater, do contradizer é o de apenas perturbar a ordem, vetar o progresso  e retirar-lhes a  “zona de conforto”.  
Então, nessa  linha de ver o mundo ao seu redor em perigo, lhes basta  um passinho de bebê para  se sentirem ofendidos e machucados e se arvorarem de direitos que lhes permitam  a  agressão e a barbárie como revide, e o abraçar da hipermoral  e da xenofobia,  e o estranhamento - o outro não sou eu - como ataque.
Eis assim a realização do mundo pequeno-burguês, imerso no fetiche da mercadoria e no fascismo do consumo,  de aparência metapolitica, fundamentado na cumplicidade preconceituosa  e na homogeneidade apática dos iguais,  o  mundo plástico e monocromático dos “normais”  no qual a ausência da tensão da Utopia favorece a fermentação das forças mais reacionárias, produzindo  uma democracia falsa, gelatinosa,  na qual uma simples palavra, um simples pensar, é  tida como um desfigurar de “personas” e uma ameaça  aos status de pequena-burguesia   fetichista alienadora, ameaça que logo tratam de rechaçar.
Então essa  impossibilidade do pensar diferente, das “idéias fora do lugar comum” produz a falsa reconciliação das classes e das categorias, é nessa impossibilidade da fuga às regras impostas que habitam as manobras como as observadas na tal da auto-anistia  imposta à sociedade pela ditadura civil-militar, ou na falsa conciliação Igreja-Estado aonde ainda impera em ultima instância “a vontade do sacerdote sobre os escravos”  consoante pensou Nietzsche, ou a que está exposta  no filme Metropolis de Fritz Lang (1927).
Preocupa-me o momento desta viscosa democracia,  especialmente ao focar as fraternidades, irmandades, associações, partidos e  comunidades de que a dita sociedade civil moderna se compõem,  visto que estas buscam  levar as discussões e discordâncias para um plano meramente tecnocrático, plástico, inodoro (segundo eles, mal-cheiroso), artificioso, asséptico, incolor (indolor?), por vezes teológico político, ou  “teocrático burocrático”,  carregados  de indisfarçável negação da condição dual e dialética humana.  Buscam em ultima instância retirar a fórceps a humanidade do homem.
Escreveu o poeta inglês Wystan Auden:  ...”o ser humano carrega consigo, vida afora, um espelho exclusivamente seu e do qual será tão difícil livrar-se quanto de sua sombra”. 
Vejo que por esse espelho Audeniano  passamos a observar os outros ao observarmos os nossos fantasmas.  Pelo refletir de nosso vulto moldado no fetiche da moeda, nos interesses das trocas, na tragédia sufocada pela alienação da produção e do espetáculo,  é  que apontamos  o outro  como descartável,  como um mero “outro”,  apenas só mais um a ser vencido e suplantado, como aquele que não merece contemplação, crédito e muito menos atenção e cuidado.
Fica o consolo de que outros fantasmas internos quiças mais “perigosos”,  dos quais nem suspeitamos a existência, dormitam na sombra do inconsciente e não estão refletidos no espelho.    
Salva - nos  a Esperança de que, para o espelho particular onde nos refletimos não há segredo que ele não saiba desvendar e que se nos revelará em seu tempo.
Linhas  atrás  dizia de  temores e pavores, mas  confesso que queria mesmo era denunciar desmandos e desconcertos da vida humana, a intolerância, a indignação sufocada, a melancolia e o desencanto  com a espécie,  e também apontar as desigualdades, os desiguais  e aqueles considerados  não afins de outros.
De entremeio aventava a possibilidade de especular  sobre a fugacidade do tempo, a precariedade do mundo, a efemeridade do feio e do belo,  a ausência  e a transitoriedade de tudo, na possibilidade  de  surpreender o humano originário da concepção divina por trás da nossa sombra e solidão deste drama existencial.
Queria simultaneamente perseguir  a crença no homem, insistir na possibilidade da realização da felicidade através da Razão e do Coração intermediados pela Mão, da co-realização através da sensibilidade e do desenvolvimento educacional  e formativo, o qual necessariamente não  seja o de uma academia ou escola curricular, mas sobretudo empírico, existencial e intuitivo, acreditar na emancipação humana através da razão e da sensibilidade  com visão na totalidade,  e sob a ordem, não do livre arbítrio, mas da liberdade.
Buscava apesar de tudo manter a fé e a esperança de que a humanidade ( huma+unidade) intrínseca no homem saia vencedora,  de firmar a crença de que o homem é capaz de se trans-Formar, de que cada ser humano é uma forma específica de manifestação que busca na existência real  harmonizar  razão,  instinto e intuição, e crer que quanto mais evoluídos material e espiritualmente possamos estar, mais estaremos próximos de nossa Criação-Formação original adâmica paradisíaca. 
Talvez tudo isso fique para outra ins-piração.
                                                        Vilemar  F. Costa – Julho/2011

Nenhum comentário: