quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014





DO SISTEMA DO DINHEIRO E DA POLITICA,  E A NOVA SOCIEDADE


Nós devemos impor que o ensino na universidade desenvolva a reflexão e a formação politica de modo a torna-la uma base de ação externa efetiva.  -  Michel Foucault.


A retórica atual usada pelos adeptos do sistema patrimonial-patriarcal produtor de mercadorias e seu fetiche dinheiro, especialmente os que se alocam na dita classe média, é rica no emprego de palavras como “crescimento”, “mérito”, “desenvolvimento”, “trabalho”, “produtividade”, “esforço próprio”, “empenho” “reforma” etc., de modo a mascarar a destruição paulatina do progresso real alcançado em algumas áreas da vida por uma significativa minoria que intentam lhes igualar e mordem seus calcanhares, consumindo, comprando, frequentando lugares que antes lhes era reservado “por direito natural de bem sucedidos”.


Por falar em reforma, é sabido que os pobres e os miseráveis são os que mais sofrem os nefastos impactos que ela deixa nas sobras, no sobejo. Basta lembrar uma famosa reforma social que se denominou “Aliança para o Progresso” e o acordo MEC-USAID.


Voltando ao assunto relativo à retorica e os adeptos do sistema, um dos efeitos marcantes, porém não percebidos e nem sentidos pelos médios cidadãos e nem pelo conjunto de sua classe, é a imposição e constrangimento impostos sutilmente pela ordem globalizada da matrix, através dos “senhores de engenho” da casa grande e cobradas de execução aos seus “feitores e capitães do mato” sobre o restante da “gandaia da senzala”, e que resulta em tornar propositalmente a democracia supérflua pela “politica do dinheiro e do mercado” como meio de igualização e que pauta os meios institucionais ditos como “social democratas ou centro esquerdistas”.


Deriva que aos partidos políticos resta a fala repetida feito papagaio dos termos “desenvolvimento”, “obras”, “oferta de empregos”, “verbas”, “licitações”, “orçamentos”, “desempenho”, e nenhuma menção programático-ideológica partidária. O objetivo é apenas alcançar o Poder Executivo e arregimentar por imposição ou cooptação o Legislativo, independente da coloração, programa, partido, ideologia de seus componntes.


E assim aos políticos espertos e inseridos no sistema, reserva-se o desespero em agradar seus mestres, a utilização da politica como meio de vida, a construção de  secular e hereditária carreira politica, passada de pai para filho, e a facilidade de ganhar dinheiro de qualquer forma e a qualquer custo.


E se há um partido que tente fugir a regra global estabelecida, que desafie os ditames e regras do sistema, que busque construir uma estrada alternativa para uma robustecida democracia participativa, republicana, embasada numa estratégia socioeconômica igualitária e redistributiva e que elabore um roteiro que vise mitigar os problemas sociais, esse partido “diferente” e que rejeita o seu enquadramento dentro do “quadrado mágico” global, deve ser imediatamente difamado, atacado, “cercado”, isolado, e  acusado de totalitário, ditatorial, “comunista”, parasita, oligarca e burocrata, junto com a pecha de que ele  visa somente instituir a ditadura do partido único populista ou do proletariado, através da “compra” de votos via projetos sociais para os de baixa renda...


Já vai longe a época em que era orgulho e ideológica virtude, partidos e políticos apresentarem programas, projetos, fundamentos ideológicos objetivos, dinamismo crítico e isenção das amarras do governo, mesmo que parte dele alçasse o Poder.


O que se poderia observar se abríssemos a cabeça dos filiados aos “modernos” partidos “socialistas “, “progressistas”, “trabalhistas”, “republicanos”, “democratas”,  seria um espaço vazio, ocupado aqui e ali por uma mobília velha emprestada pela nova ordem globalizada, pelo capitalismo, pelo sistema produtor de mercadorias e de robôs consumidores, que a todos catequisa e converte para a religião politeísta do deus mercado, do deus dinheiro, do deus produtividade  e  do deus trabalho,  e a sua doutrina do mérito e da dissociação social e sexual. Mobília que o cupim da ganância e da inveja corrói lentamente...


E essa nova velha ordem doutrinária de 300 anos, influencia tudo e penetra tudo, desde as tradicionais crenças religiosas, teológicas, místicas, esotéricas, até a informação, a formação, os gestos das pessoas, a maneira de vestir, de falar, a prosa, a agenda social-familiar cotidiana, a educação e subverte os conceitos de entendimento do que seja liberdade  e livre pensar.


A nessa “nova” ordem, a velha nova classe média fetichizada responde hipnoticamente com a recusa em buscar entender e compreender sua existência e funcionamento dentro do sistema e muito menos quer saber ou entender o porquê da existência dos miseráveis, dos despossuídos, dos desempoderados, das favelas e dos pobres, ao contrário, buscam manter seus narizes distantes do “fedor” que deles exala, fecham os olhos para suas faces magras, amareladas, sujas, e suas pedintes mãos enegrecidas de chão, quando muito, visando consolar seu sentimento de culpa e buscando a indulgencia do perdão e do céu numa outra vida, formam “caridosos” grupos a servir sopões noturnos, “doação” de velhas roupas usadas descoloridas, construção de “abrigos” para que por uma ou duas noites os “marginais” e “deslocados” dormitem com direito a um ralo café da manhã e um tchau e até logo. Ou seja, de outra forma armam subterfúgios e camuflagens de negação, para esconder o desejo intimo de não querer resolver ou não se dispor a apresentar uma solução real e definitiva para essa questão social fruto de sua própria classe média e de sua categoria medíocre, intermediária, indecisa entre ser ator principal, protagonista ou ser marionete. Afinal  o pensamento repetido à exaustão é que a estes mendigos, a estes miseráveis, a estes pobretões dos grotões das periferias lhes falta tão somente “força de vontade”, mérito próprio de conquistar seu lugar ao sol, desejo de produzir, vontade de trabalhar, objetivos na vida, etc., etc., etc., ...


Bom, saiamos da “racionalidade sã” e passemos a loucos e loucuras...


Tenho alguns pensares e alguns olhares que objetivam formar um construto, uma construção a várias mãos e cabeças...


Antes preciso expressar o que ressoa em minhas experiências que é a certeza de que  devemos nós, a sociedade, a gente, cada sujeito, comporem-se, se auto organizar, assumir todas as tarefas relacionadas aos nossos interesses comuns de forma direta, sem representantes. Isso é possível, pois se o modelo que nos oprime e explora é uma construção humana, temos a força, e o conhecimento para destruir o que nos flagela e construir algo novo que não oprima e não explore ninguém, e isto nos exige um compromisso libertador muito maior do que uma disciplina repressora. Unamo-nos, assumamos o controle, levemos um novo mundo em nossos corações!


Em seguida, para puxar o freio de emergência desse mundo célere ladeira abaixo, esse mundo dominado pelo dinheiro, pelo espetáculo e pelo fetiche do consumo desembestado de supérfluos, creio que devamos necessariamente agir como atores protagonistas principais  na sociedade, numa luta afirmativa contra um adversário que se utiliza de mentiras, ilusões, induções mentais, assumir uma luta propositiva e positiva em defesa da sociedade em geral, como um todo, utilizando-se da defesa criativa com foco nos interesses mais gerais, coletivos e comunitários, visando criar uma nova sociedade, mais livre e transformadora, decididamente integradora e acolhedora, solidária, não caridosa,  que caridade é uma das armas do sistema – a caridade que apela para indulgencias -,  uma nova sociedade na qual sejamos responsáveis diretos pela idealização, construção, criação e formação de novos sujeitos e novos indivíduos  que tenham foco na alteridade e na fraternidade, uma sociedade nova na qual a vida não se restrinja à sequencia produção/consumo/dinheiro/posse/poder, uma nova sociedade em que o sujeito ator possa dar sentido e unidade à vida.


Essa sociedade nova será aquela na qual já tenhamos concretizado a superação do espírito capitalista e o estatismo autoritário.


Nessa sociedade nova teremos reconhecido o multiculturalismo e o respeito aos direitos culturais a todos.


Temos de definir nessa nova sociedade, - não erguida sobre o alicerce antigo, e nem utilizando a argamassa igual a dos muros que demolirmos - , um princípio real de igualdade, em que o princípio de igualdade não seja separável do princípio de diferenciação, um princípio que valorize a igualdade e a diferença, encarnado num conjunto de direitos sociais, humanos, culturais e ambientais para todos os seres humanos como iguais e ao mesmo tempo diferentes e onde se reconheça que não somos donos e nem superiores à natureza e aos recursos naturais finitos, mas apenas componentes, semelhantes e coparticipantes do mesmo mundo e da mesma natureza.


Essa sociedade nova não terá apoio sobre uma suposta racionalidade do mercado e deverá buscar suas referencias nos movimentos sociais, nos coletivos dos indivíduos (alerto: Sindicato de classe não é movimento social),  nas coletividades das minorias sociais – pobres, negros, favelados, sem teto, moradores de rua, desempregados, catadores de lixo, homossexuais, mulheres, índios – e nos movimentos sociais de defesa do meio ambiente coletivo.


Será uma sociedade em que se falará sobre a nação em termos de sociedade e não em termos de Estado.


Pondo freio a torrente de letras, alguns rabiscos e apontamentos a mais:


*  preponderante, inevitável e necessário é resistir ao sistema globalizante hipnótico do fetiche, do consumo, do espetáculo, do dinheiro. Resistir é viver.


* impor avanços nas exigências relativas aos direitos humanos, direitos urbanos e do meio ambiente.


* exigir construção de alternativas reais e objetivas para implantação de diretrizes voltadas às necessidades de saúde, moradia, educação, geração de renda,  para os desfavorecidos, desempoderados e exilados nas periferias das grandes cidades.


* rompimento total e denúncias concretas e precisas contra as práticas de violência contra as minorias e contra moradores de rua e da periferia, bem como contra  a práxis contrária aos interesses coletivos das periferias e  os de trabalhadores sob regime de salário mínimo.


* motivar a constituição de assembleias populares autônomas e auto organizadas.


* delegar poderes de decisão aos pobres, aos movimentos populares e aos coletivos das minorias e das periferias para assuntos de interesse coletivo próprio e que lhes afete diretamente.


* reverter as prioridades e colocar a economia a serviço do social, da democracia participativa e dos sujeitos na base da pirâmide social.


* pôr mãos à obra na construção de uma consciência politica coletiva junto das massas, visando uma sociedade republicana livre dos especuladores e liberta do mercado, com indivíduos/sujeitos libertos do fetiche do consumo e da mercadoria, e da cadeia financeira, e, portanto livres da pobreza.


* formar, via inserção no currículo escolar das escolas de segundo grau, publicas e privadas, cidadãos conscientes das práticas de igualdade racial, étnica e de gênero e sexo.


* educar toda a juventude estudantil de todos os níveis de escolas, no sentido de que o coletivo e o interesse da comunidade prevaleçam sobre o interesse individual pessoal e buscar ampliar essa formação para toda a sociedade em geral. 


Educação aqui não como forma de domesticação ou como uma das estruturas de poder erigida para sujeitar, alienar, direcionar e coibir o espírito criativo e nem a sã rebeldia.


E a parte mais espinhosa e realista, mas não impossível:


* radicalizar rompimento com FMI, Banco Mundial, OMC, AID – Agencia de Desenvolvimento Internacional, Mercado Comum Europeu  e similares, direcionar o foco na pecuária e agricultura para o consumo interno, e produzir bens de consumo duráveis e voltados para nosso povo e nossa realidade.


* reduzir drasticamente os incentivos fiscais e empréstimos facilitados por bancos públicos para os oligopólios, as grandes empresas, as grandes empreiteiras, os conglomerados comerciais e financeiros, nacionais e estrangeiros.


* desprofissionalizar os partidos políticos.


* retirar a venda e demonstrar para toda a sociedade que o dinheiro, a mercadoria, a multiplicação da mercadoria, a globalização da produção  industrial, a financeirização desta produção, o lucro, o valor e o preço não têm inocência alguma, são astuciosos, têm suas evidências lógicas, racionais e autônomas, não têm escrúpulos e nem piedade, são cruéis e tronam o homem o lobo do próprio homem,  e neste processo demonstrativo revelar-lhes as entranhas, revirar e pôr à mostra seus intestinos. 


Por fim a título de informação, dou a conhecer, que as intervenções políticas, militares e econômicas que trafegam nos países mundo a fora, “promovendo” desestabilizações e “revoluções”,  e implantado regimes autoritários favoráveis e acolhedores do imperialismo do capital e da expansão colonialista do capitalismo globalizante estão a cargo de alguns órgãos caridosos  assistenciais”  globais dentre eles alguns que nomeio  a seguir: AID – AG. DESENVOLVIMENTO  INTERNACIONAL (ALEM.) //  NED – FUNDAÇÃO NACIONAL PARA  A DEMOCRACIA (EUA)   //  NDI – INSTITUTO DEMOCRATICO NACIONAL (EUA)  // CIPE – CENTRO PARA DESENVOLV DA EMPRESA PRIVADA (CAMARA COMERCIO  EUA)  //  ACILS – CENTRO PARA A SOLIDARIEDADE TRABALHISTA INTERNACIONAL (ING)


Vilemar F. Costa – 01.02.2014

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