segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ética, generosidade, honestidade, solidariedade, Justiça e altruísmo são virtudes cada vez mais raras num mundo onde pessoas estão a serviço do dinheiro, do ter, do possuir. É nessa sociedade que você quer viver?
A generosidade, a fraternidade, a alteridade  e a hospitalidade  devem ser algumas das coisas na vida que não podem ter preço.
Não deveria ser necessário ser poeta, louco, utópico, sonhador, hippie para apreciar o amor ou a amizade.
Por que o homem se deixa levar por um processo no qual  todas as relações sociais se transformam em mercadorias? O que nos empurra em direção deste caminho da sociedade de mercado, na qual, empresas pagam mendigos para guardar lugar na fila, pais oferecem dinheiro para que seus filhos tenham boas notas na escola, paga-se fortuna para um cambista por um ingresso da final da Copa, a posse de um carro lhe torna um rei?
Transformar tudo em mercadoria tem, desculpe o trocadilho, um preço. Quando o dinheiro toma um papel cada vez maior na política e na vida social, a sociedade  está em risco.
E é alto o risco de fenecerem os valores básicos humanos pois uma sociedade sadia depende de importantes valores que não estão no mercado: espírito cívico, educação, investir em espaços públicos onde cidadãos de classes sociais diferentes se encontram, o bom convívio na vida comunitária, a amizade indistinta, a cidadania, e a ausência incondicional do que hoje se observa na face das pessoas: a sensação de desconfiança das pessoas, umas nas outras.
Esse estado de ser, induzido e sutilmente imposto como normal, começa a partir do inicio do século 20 em que se viu uma disputa feroz entre os adeptos de que o Estado era a melhor forma de organizar a sociedade contra os defensores de que o mercado seria mais eficiente. Era uma espécie de jogo mortal e radical, que terminou com a vitória do mercado.
Os  grandes defensores do livre mercado, não apenas derrotaram as os valores da vida social em comunidades, o espírito cívico e a cidadania, a fraternidade desinteressada e a ética, ao abrirem caminho para uma era de mercadismo ensandecido, nem foi por acaso que os mercados financeiros foram desregulamentados, os impostos para grandes fortunas camuflados, e criada a ideia de que o mercado é ontológico e natural e que através dele se  poderia resolver qualquer problema. Com o extremismo dos adoradores do mercado, do dinheiro, das propriedades exclusivas  colocou-se abaixo do ter, do poder e do dinheiro toda uma sociedade humana, chegando-se ao ponto de alguns destes adoradores do mercado, virem a dizer, que não existe sociedade, apenas indivíduos e famílias. Ou seja, o Estado não deve se meter na vida de ninguém. O problema desse pensamento é simples e perigoso: ele ignora que a sociedade existe, sim, e que as pessoas se movem não apenas por relações econômicas.
Contudo o mercado e seus áulicos, moldou uma sociedade em que antes de mais nada o ponto crucial nas relações humanas é o de saber qual o benefício financeiro de ajudar alguém diante de uma dificuldade de saúde, alimentação ou moradia ou em oferecer um quarto que você poderia alugar para outras pessoas, ou ajudar  com trabalho e materiais num mutirão para construção ou reforma de casa?
Reduziu-se assim, o espírito comunitário, a comunidade, o convívio, a humanidade fraterna e solidária, o bem-estar social de todos indistintamente, a práxis de trabalho em torno de um horizonte comum como um ponto axial, a uma mera utopia irrealizável, a um vão sonho perdido, reduziu tudo como sendo tal convivo e comunidade uma meta inalcançável, uma falta de vontade em progredir por méritos próprios, uma fraqueza moral.
Pois nessa sociedade em que dinheiro e o mercado valem mais do que tudo e na qual tudo está à venda, quem pode, manda, quem sempre ganha, ganhará sempre e mais, quem tem fatalmente obteve, por esforço, por mérito e qualidades e capacidades especiais, nem sempre validadas e comprovados,  às quais os que não têm não alcançaram e não mais alcançarão, porque já está determinado que, quem merece ganha, quem compete e derruba, vence, que as oportunidades não estão para todos, e que quem tem mais, sempre terá mais poder. E de fato ao longo do tempo, quanto mais posse, oportunidades, méritos,poder eles têm, mais conseguem leis e regulamentações que os favorecem — mesmo que isso aconteça à custa das outras pessoas.
Pior é que dessa forma acabam criando uma sociedade em que é muito difícil ascender socialmente e o ciclo vicioso de, mais ter, mais poder, e mais leis a beneficiar e proteger o ganho, o lucro, a posse, é infinito.  E para os que nada tem, sobra a exigência por eficácia, eficiência, competência e méritos para a ascensão, mesmo que inexistam  os meios para atendê-la.
Na outra vertente, o modelo de produção, e de trabalho, impõe ao assalariado, ao trabalhador/produtor, trabalhar  sempre com as mesmas pessoas e conhecer gente que sempre está no mesmo círculo social que eles, o que direta ou indiretamente irá produzir estranhamentos aos diferentes de categorias e classes, e uma perspectiva distorcida de não-amigo, de um outro não-igual, e que de alguma forma pode acarretar uma síndrome de estarem todos sempre com medo uns dos outros e sempre com medo do próximo. Medo de perder sua posição, seu status, sua propriedade, e medo de qualquer coisa fora do normal vir a se transformar numa ameaça real.
E especialmente nas últimas três décadas, o mercado dominou muitos aspectos da vida social e esvaziou o debate sobre ética. Passamos  a tomar decisões não com base se elas são boas ou más, mas se são lucrativas ou não, e não mais sério é o fato de que através da política em vigor no sistema globalizado de mercado, este sistema gira hoje somente gerando os maiores e melhores benefícios para as pessoas que estão no topo em detrimento do restante da sociedade.
Com esse comportamento, o mercado e os poderosos acabam empurrando grande parte da sociedade insatisfeita e revoltada por não ascenderem ao local privilegiado das elites, para a insubordinação, para a rebeldia, para as ocupações e movimentos de massa como uma das saídas para mudar essa situação, através do reagir, do negar, do confronto, visando buscar implementar uma nova maneira de viver que ajude a equilibrar as forças entre quem tem muito dinheiro, quem muito pouco e aqueles que não tem nada.
Na realidade temos como certo apenas que quanto mais coisas o dinheiro pode comprar, menos oportunidades teremos para pessoas de diferentes formações e classes sociais se encontrarem, e que o aumento da desigualdade e da quantidade de coisas que o dinheiro pode comprar são corrosivas para a humanidade, para a democracia, para qualquer sociedade sadia, para a ética e para os valores morais.
Uma única certeza é a de que hoje estamos hoje vivendo ou perto de viver numa plutocracia, sistema político onde o grupo mais rico exerce o poder, mas restando-nos, porém o consolo e o conforto de saber que há coisas que o dinheiro não compra: O afeto, o amor, a amizade, o espírito cívico, a solidariedade. Essas coisas não podem ser compradas.
Porém, estejamos atentos, que bem se repare, pois ainda assim o egoísmo, a ganância do lucro, a particularidade do privado, a sede de poder e do ter, o dinheiro dos poderosos  chega cada vez mais perto de comprá-las.
Vilemar F. Costa – agosto/014



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