quinta-feira, 29 de janeiro de 2015



Possivelmente por, como disse o Drummond, não se esperar nada, conseguimos ver as pessoas- o mundo. E acho que isso possa ser um norte maior. Nunca fui das pessoas mais crentes que conheço. Leio livros místicos, esotéricos, cabalísticos, cristãos, Zen, filosóficos, porque me fazem sentido. Não acredito em reencarnação, nem em carma como milhagem, como dadiva, como dívida, acredito em tentar viver com compaixão e humildade, buscando melhorar-se e melhorar o mundo em volta. Sem esperar nada, mesmo. O mundo não vai me pagar, não vai súbito ficar bom, agradável, melhor, apesar de que eu acho que isso é o que falta, especialmente pra minha vida.
Em alguns momentos do meu viver ficou/ fica difícil sequer pensar em qualquer tipo de divindade. Acho complicado quem encontra Zeus, Deus, Eus na miséria, na necessidade, na perda, no desejo, na dor...
Mas em todos os momentos, bons ou ruins, é possível pensar como um pouco de capacidade de sair de si, abandonar o umbigo, olhar em volta, dar de ombros, olhar o outro, torna/tornaria aquele momento melhor/menos pior. 
Não conseguiria ser uma dessas pessoas que simulam que a vida segue ilesa, mesmo com todo solavanco, também não suportaria levar minha vida como um simulacro, numa simulação de estar alheio. Como disse o Eco, e eu cito: " Se você interage com as coisas em sua vida, tudo muda constantemente. E se nada muda, você é um idiota."
Conseguimos ver a santíssima trindade desta nossa modernidade? a) poucas horas de sono, b) máxima produtividade e c) conexão ininterrupta, que se traduz numa eterna disponibilidade. O dia não é mais dia e a noite, apenas noite. As redes, que não conhecem intervalo nem descanso, atravessam as horas, conectando todos os ciclos. Logo, perde-se a noção de salto e de progressão. Tudo é continuidade, e até a passagem de um ano a outro começa a perder o sentido. Os ciclos envelheceram. Dormir é um valor negativo, o acaso é evitado e as conexões se volatilizam.
Falei em dar de ombros... Seria uma rima ou uma solução? Uma resposta ativa ou passiva? Responsável ou irresponsável? Como dar de ombros diante de uma crise como a que o mundo atravessa? Como dar de ombros quando o desconhecimento é um pecado? Como assumir-se ignorante quando há fartura de informações chegando por todos os canais? Como dar de ombros se precisamos apenas encaixar uma informação na outra e oferecê-la em bandeja de prata? Ou dar de ombros seria, ao contrário, a tácita admissão de que, a despeito da superabundância e dos bancos de dados superlativos, permanecemos um bocado às escuras, tateando sentidos e tendo de interpretar cada signo um a um, exatamente como fazíamos há milhares de anos, nas cavernas da nossa infância?

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